Zilla Mays

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Continuo procurando bobícias na Seep Web, por boas novas escondidas entre o ‘undigital’ to ‘pandigital’.

E hoje encontrei esta linda voz, Zilla Mays, que com sua inflexão abrasada no R&B me lembra, por momentos, de Lady Day.

Seja autoindulgente em desperdiçar o seu tempo em ouvir “The Men I Love And The Songs They Sang”, acompanhado de um bom vinho e uma ótima companhia, e tente entender como uma indústria fonográfica criava além das grandes cantoras da época outras tão boas quanto; no caso de Mays, que teve mais destaque como radialista do que como cantora.

The Lord above made liquor for temptation
To see if man could turn away from sin
The Lord above made liquor for temptation, but
With a little bit of luck, with a little bit of luck
When temptation comes you’ll give right in!

With A Little Bit Of Luck – by Stanley Holloway (o eterno Alfred P. Doolittle)

Satan laughing spreads his wings

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Acho que não há o que falar mais sobre Black Sabbath.

Só ouvir.

Então procure o equipamento de sonorização mais potente que encontrar, abra uma cerveja e curta “Live… Gathered In Their Masses” ou “Reunion”.

Ambos iniciam com War Pigs, que dá o título deste post e a letra ainda é atualíssima.

Lascia la spina, cogli la rosa

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Haendel é um músico e compositor conhecido. Para mim, foi tardio, já passado dos quarenta anos quando ouvi ‘Rinaldo’, no processo de alfabetização musical que me auto-impus.

Neste momento, ouço ‘Messias’, um lindo oratório e referência popular permanente no imaginário ocidental.

O retorno à frivolidade

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Neste momento percebo o quanto a ausência do pensamento crítico, da argumentação racional e da educação científica pode custar muito caro para uma sociedade.

A vida de pessoas está em perigo simplesmente porque o analfabetismo científico/funcional e o afastamento da preocupação pelo coletivo, pelo outrem, são motrizes do comportamento destes primatas ansiosos.

E primatas ansiosos é o cerne de toda esta realidade … não imaginei que vivenciaria um fenômeno social e evolutivo onde as premissas de sobrevivência (e de perpetuação da espécie) foram tão enviesadas, onde a percepção de altruísmo é soterrada por truísmos cognitivos dissonantes.

Sinceramente, é fantástico estar assistindo tudo isso acontecendo, consciente de que um momento para outro posso desenvolver uma pneumonia súbita e morrer afogado em meus próprios fluidos. Gostaria muito de estar vivo (quem diria, digo, escreveria, hein) para ver o final deste momento serendipitoso. 🙂

Pelo livros que li ficcionais ou não, o fenômeno COVID-19 irá incluir muitas novidades; uma delas é que a reflexão de um novo senso comum sobre as fragilidades dos sistemas de saúde frente à uma ameaça altamente contagiosa. Esta percepção foi catapultada pelas mortes, é claro, mas somente o fato de incluir na discussão cotidiana as medidas de conteção e de quarenta sanitária, elevou em muito a compreensão popular sobre o tema, por mais que as lacunas e omissões ainda persistam neste processo.

Os reflexos econômicos são os que mais surpreenderam as pessoas de boa parte do planeta. Lembrei hoje de alguns livros de ficção (que tangenciam narrativas catastróficas) e os paralelos com a vida real, esta imitando a arte.

Eventos e predições do futuro, como o banimento de motores de combustível fóssil e a intesificação da IA/IOT no cotidiano de extinção de postos de trabalhos, foram adiantados em 15, 20, 30 anos. Países estão discutindo agendas extremamente progressistas no mundo pós-pandemia, e só pelo fato de estar em discussão é sintoma de que a narrativa se acelerou para alguns segmentos sociais.

Estou fascinado por ser um privilegiado em poder assistir os eventos e, ao contrário do que aconteceu com as pessoas do surto de Influenza no início do século XX, conhecer pelo método e pela evidência científica o que está acontecendo e quais são as atitudes ‘corretas’, não no sentido econômico, mas corretas.

People see me all the time
And they just can’t remember how to act
Their minds are filled with big ideas
Images and distorted facts
Even you, yesterday
You had to ask me where it was at
I couldn’t believe after all these years
You didn’t know me better than that

Idiot Wind – do tio Bob

E daí?

This is an ex-parrot

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Acho curioso lembrar de que na minha adolescência assistir Monty Python era como assistir um pornô.

Na atual recrudescedência moral, é mais curioso de que os Pythons tenham sido lembrados no episódio da censura do especial de natal da Netflix (com o quase consenso de poucas risadas) e a morte de Terry Jones, que foi o diretor de “A Vida de Brian”, nesta semana.

Há um movimento interessante agora, de um novo conservadorismo, ali(j)ado ao populismo exarcebadamente difuso, mas disfarçado de uma explicação liberal para problemas muito complexos.

É fascinante acompanhar este processo histórico/social/etológico tempestivamente e ao mesmo tempo inquietante em procurar analisar, entender, interpretar, … todos os atores envolvidos.

Fukuyama não poderia estão tão errado quanto este início de 2020 …

As mil facetas de Sidney Lotterby [25]

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O Maurício tinha uma gama de amigos de tez mais bronzeadas. Eu, como mais um pardacento, e eles conversávamos regularmente sobre racismo à brasileira e alhures.

Não me lembro com quem foi, se com o Negão, se com o Bocão, se com o Carl, mas a estória que o B.I.T.C.H.ô contou foi mais ou menos assim…

Num dia, ou melhor, numa noite, saíram pra tomar cerveja e conversar (há algo melhor que isso?). Naquelas horas mais avançadas onde esquecemos que vamos trabalhar amanhã de tão absortos estamos nas piadas e comentários, eles só perceberam os policiais e fiscais (¹) já dentro do bar.

Como era praxis na época, todos no estabelecimento são tratados como bandidos e virados para as paredes com as mãos apoiadas nelas, pernas em spacatto (se for insolente, seu períneo vai beijar o chão), com rasgaduras nos tímpanos em decorrência dos conselhos exarados pelos agentes.

Até aí, nada de destaque para a realidade brasileira. O que chamou atenção do Maurício é que ele foi separado do grupo, quando os agentes falaram para ele ir embora. Ele era um dos raros caucasianos no estabelecimento.

Agora, procurem conceber alguém que pediu pra entrar na fila dos ‘aloprados’ e passar na blitz. Com um resmungo e um empurrão, ele foi colocado na fila, revistado e depois liberado.

Maurício jamais abandonaria um amigo, muito menos num bar (ele sempre era o último a sair), mas aquele evento o marcou muito forte, a sua pele determinou a conduta do agente em separá-lo dos ‘não-brancos’.

O racismo inerente do agente, era um sinal do quanto precisamos ainda de trabalhar sobre este tema.

(¹) naquela época tais ‘blitz’ ficaram famosas por só atuarem em comunidades pobres e, não incomum, evitarem as regiões do narcotráfico… mas isto é outra historieta …

As mil facetas de Sidney Lotterby [24]

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Ao longo do post desta semana, topei com algumas coisas novas (res novae) e encontrei a declaração da Poison na elegia para o Lux:

“Lux seemed like a creature from another world, with one foot already out of this dimension. As much as we might wonder, ‘Where are you now?’ we can also wonder, ‘Where on Earth did you come from?’ Now that’s a mystery!”

http://www.trebuchet-magazine.com/lux-interior-in-memoriam

No mesmo link, há a expressão:

“I also got some really nice hugs and that is an enduring memory. ”

Isto me lembrou de algo que o Maurício sempre fazia, ele abraçava todas as pessoas que conhecia. Posso dizer que foi ele que me ensinou a abraçar.

Cresci numa cultura de que contato visual ‘prolongado’ já era motivo de briga, imagine então abraçar. O comportamento dito masculino via no abraço (na minha juventude) como algo muito íntimo, reservado até para um contexto mais sexual do que uma demonstração de carinho.

No dia em que ele suicidou-se, falei pra minha esposa que não tive uma oportunidade de abraçá-lo e dizer que o amava pela última vez; não que pudesse dissuadí-lo, mas que não se despedisse da vida de forma tão solitária.

Desde então, tenho me policiado, hapticamente diligente, para abraçar tantas vezes for possível, e dizer ‘eu te amo’ ao invés de ‘até logo’.

A última lição foi não desperdiçar mais as oportunidades que são REALMENTE importantes…

They’re gonna have to introduce conscription
They’re gonna have to take away my prescription
If they wanna get me making toys
If they wanna get me, well I got no choiceCareer opportunities, the ones that never knock
Every job they offer you is to keep you out the dock
Career opportunities, the ones that never knock

Career opportunities – The Clash

My Fair Munster

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Há coisas engraçadas e pueris que ficam mais engraçadas, mas ao mesmo tempo interessantes, quando envelhecemos.

Lembro que eu ria muito de “The Munsters” lá nos meus sete anos de idade, e ri muito depois quando assistia seus ‘reprises’.

Hoje, assistindo no aúdio original para praticar a língua inglesa, descobri que o corvo Charlie fala ‘Nevermore’ já no primeiro episódio numa brincadeira que Poe talvez gostasse. E quando Lily (Yvonne de Carlo), falando de Eddie (lembra alguém do Iron Maiden?) sarcasticamente fala “howl at the moon when comes up” eu rio e lembro de ‘The Cramps” da cover que fizeram para ‘Goo Goo Muck’ de Ronnie Cook and The Gaylads.

Rindo sozinho (há melhor risada?), penso de que se eu nunca tivesse lido Edgar Alan Poe, jamais tivesse visto as capas do Iron Maiden ou ouvido The Cramps, teria algum dia a capacidade de vincular uma série obscura dos anos 1960 a tantas referências dissonantes?

Acho que não… mas é divertido pensar: “what if…”

” hide the virgins say your prayers here come trouble from the cosmic sea ”

Godmonster – The Cramps

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Passeando a pé pelo centro com minha esposa, vimos algo até então inusitado numa das regiões mais caras, em aspectos imobiliários, de CWB. Várias lojas disponíveis para alugar e, em menor número, para vender.

Passado nove meses da gestão da família Bolsonaro, percebe-se que a campanha de 2018 ainda não acabou e os problemas estruturais devem ser resolvidos após a eleições de 2022.

Neste ínterim, há uma nuvem negra, tão rançosa como o falso moralismo religioso, tão antiquada quanto dar respostas velhas para perguntas novas. Mas fazer alegorias com nuvem negra é não fazer jus ao que foi declarado, praticado, decidido até agora. Nunca li tantas referências à autocracias e liberdade (individual, principalmente), muitas vezes numa mesma frase, e sinto como se 1968 nunca tivesse acabado.

Mas acabou e em pleno século 21, o newspeak é inferir ‘socialismo’ a ‘corrupção’ e vender as soluções em calibres.

Sinto uma sensação esquisita quando lembro de meus opinativos em ler Levistky na FSP e classificá-lo como alarmista demais. [Pré-conceitos são o chicote da bunda … 🙂 ]

Os sentimentos binários que conduzem o ‘humor’ do atual momento são perigosos quando pessoas com

Oh, what’ll you do now, my blue-eyed son?
Oh, what’ll you do now, my darling young one?

Aardvark

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Escrevi bastante sobre quadrinhos neste mês, e não poderia deixar de mencionar que iniciei nesta semana a leitura de ‘Cerebus’. Faz mais de 20 anos que ouço/leio os efeitos da querela no número 10 de Spawn (edição norte-americana) que nunca (até onde sei) foi publicado aqui nas paragens dos Kaigang.

Tô lendo e me partindo de rir, na espera quando Gerhard começará a desenhar ‘mesas e cadeiras’ atrás de um um porco-formigueiro.

E concordo com Alan Moore, os enquadramentos elaborados e técnicas narrativas são um marco.

Que serions nous donc sans le secours de ce qui n’existe pas ? Peu de chose, et nos esprits bien inoccupés languiraient si les fables, les méprises, les abstractions, les croyances et les monstres, les hypothèses et les prétendus problèmes de la métaphysique ne peuplaient d’êtres et d’images sans objets nos profondeurs et nos ténèbres naturelles. Les mythes sont les âmes de nos actions et de nos amours. Nous ne pouvons agir qu’en nous mouvant vers un fantôme. Nous ne pouvons aimer que ce que nous créons. »

Paul Valéry [li o começo desta frase de Valéry como um trecho separado num blog de política e gostei tanto que tinha que procurar o contexto… e o contexto é tão bom quanto o excerto.]

As mil facetas de Sidney Lotterby [23]

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O momento de mediocridade (cultural, moral, educacional, ético, sexual,…) que vivemos hoje não é de agora, é de bem longe. Dizem que é da carta de Vaz de Caminha quando pede uma sinecura, outros dizem, que é do hábito de furar fila de trânsito.

Não saberia dizer.

Mas uma pista do que está errado aconteceu há um pouco mais de 15 anos, quando o Maurício foi chamado na direção da escola pública e lhe falaram que ele estava com um nível muito alto de exigência dos alunos. Na verdade, problema era uma turma do que seria hoje 9º ano, quando eles viram que aquele jeitão ‘brincalhão’ de dar aula era um mote para arregar o desempenho escolar.

O Bitchô até tentou equilibrar mas ele via sinais de contestação de autoridade (que ele entendia como esperado em consideração à faixa etária). Após constatar que a sua didática não era comênica o suficiente para aqueles diabinhos, ele decidiu se encaixar, até o final do ano, no molde tradicional de professor.

Pra quê?

Houve uma resposta imediata da turma, o que levou a direção invertebrada da escola a solicitar por ‘prudência’ em sua conduta pedagógica.

O que mais chateou ele foi a ausência da diretora em ‘ouvir’ os dois lados de forma equilibrada e de entender que a conduta era a ‘tradicional’. Ele nunca me disse com estas palavras, mas percebeu que a sua abordagem de aprendizagem era inadequada para uma faixa etária em que hormônios afloram intensamente. Em idades superiores, a constetação da autoridade e do aparelho educacional era crescente.

Resignado (por fora, já que precisava do emprego de professor para continuar sua existência econômica), ele alterou a sua metodologia que pode ser resumida neste tipo de prova:

Imaginem no dia desta prova a percepção dos alunos. Imaginem quando algum professor, algum pai/mãe ou até a diretora soubesse desta prova.

Só imaginem as emoções e reações …

Era um ato de transgressão em certa medida, uma posição a ser defendida em outra, era uma tremenda infantilidade … e ao mesmo tempo, uma ótima tiração de sarro.

Não à toa, o Bitchô procurou nunca mais dar aulas a partir do sétimo ano da mesma maneira que um evangélico se ajoelha perante a cruz.

There’s one with you, lookin’ so sweet
But she’s just a wolf dressed up like sheep
Secret gadgets up under their clothes
Stuff you hear about but nobody knows
And it ain’t no use, all women are bad

All women are bad – The Cramps

Bone

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Faz décadas que ouvi falar sobre a banda desenhada Bone. Pensei comigo mesmo em iniciar a leitura antes que começassem as minhas aulas do segundo semestre de 2019. Passado um mês de aulas, e ainda não cheguei na metade da leitura. 🙂

Além de ser uma ótima história, há diversas referências que me chamaram atenção, além da analogias e paralelos com o pequeno ‘Ismael’.

Me surpreendeu, dentro da narratologia mítica que Jeff Smith nos apresenta, uma apresentação sutil de dilemas morais e éticos, exemplia gratia:

É bom saber que, muitas vezes não iremos ter a oportunidade de ler assuntos tão densos em livros ou em ambientes acadêmicos, mas que a arte ‘menor’ nos propicia de maneira mais palatável.

Everybody’s got a price to pay
Gonna do things my own way

“It’s my life” – Agnostic Front

Try an’ put a brave face on this…

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Tô relendo Watchmen pela enésima vez. Desta vez em inglês, para capturar as traições da tradução.

Quando Dr. Manhattan constrói o seu relógio em Marte eu estava no ônibus (de novo?) e, chegando em casa, reli tudo de volta para entender o vai-vem da autonarrativa do personagem.

A história dentro da história, “Tales of the Black Freighter”, é uma sacada que achei genial:

Se você ler o dialógo do Capitão perceberá uma relação entre os diálogos. Como exemplo, a expressão “bubbling dialogues” encaixa perfeitamente nos balbucios do vendedor de jornais, da viciada, do namorada dela, …

Acho que Watchmen foi uma das melhores HQ que li e reli, enquanto algumas outras perdem relevância ou tem seu impacto diminuído pelo tempo. E olha que as referências que o Moore insere na história são violentamente anacrônicas. Ainda assim, acho que Watchmen será o tipo de leitura recorrente neste tipo de universo fantástico que é os quadrinhos.

“Let’s put a smile on that face!”

Coringa, episódio sim, episódio não.

Gurufim

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Este é o post final para thread “Da minha morte”.

Quando eu comecei a escrever sobre este título em 2012, não sabia até quando gostaria de escrever sobre isso, e lendo outros posts (tão bizarros e tão cabotinos quanto) é fácil de ver que a morte (my darkest friend) permeou vários dos meus posts.

Escrevi uma elegia egocêntrica sobre a finitude da minha existência, e relendo-a, acho engraçado que muito possivelmente ninguém ouvirá música (talvez um streaming) ou comerá bolo de fubá com erva-doce no meu passamento, mas a hipótese de isto acontecer me traz um sorriso. É uma pena que não estarei por aqui …

O obituário de músicos e escritores que admiro também perdeu o sentido, eu não sabia que muitos deles ainda viviam na minha era … a morte de Vonnegut e Redson, por exemplo, foram e ainda são doloridas.

Com o salário que ganhava até 2017, nunca comprei tantos livros na minha vida… e ficaram todos jogados, espalhados. Somente a diarista para organizá-os ou limpá-los. Só recentemente voltei a ler (neste momento finalizando um do Hélio Schwartamann e iniciando de Glenn Grennwald) e enquanto escrevo estas linhas ouço Kill’em All (quanta morbidade, né?). É um grande avanço para quem nem conseguia ler jornal.

Voltei ao inferno discente. Ainda sou um analfabeto funcional, mas aprendo uma coisa diferente todo dia, como antes. Espero não decepcionar tanto desta vez.

Pensei que não conseguiria ter uma vida normal, mas aos poucos o hedonismo e o cinismo se reestabeleceram. Me sinto renovado, neste processo catártico, mas ainda o mesmo medíocre.

Then Helen, daughter of Zeus, took other counsel. Straightway she cast into the wine of which they were drinking a drug to quiet all pain and strife, and bring forgetfulness of every ill.

Odisséia

Rigor Metodológico

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Há bastante ruído que o governo do mito instaurou nas IFES; mais ataques do anti-intelecutualismo que aflora neste momento de maneira ‘esfuziante’.

Entre os ataques, há menção à Filosofia… il doce far niente.

Acho que muitos já escreveram sobre as asneiras que o mitômano bolça e, infelizmente, ele não foi o primeiro a atacar algo que não conhece e não faz questão de conhecer.

Hipácia seria morta pelos luditas ingleses. Alexandria seria queimada por Rommel… estas alternativas aconteceram e, ao mesmo tempo, não.

Este momento anti-ciência, é triste, mas passageiro. Pessoas morrem quando entram em conflito com ciência. Sarampo é uma prova disso.

Mas Filosofia? My goodness…

Imagino Kepler, com sua vida miserável, olhando para um céu estrelado imaginando o que estaria errado com seus cálculos que apresentavam uma “geometria distorcida”. Acho que isto não era Filosofia …

Possivelmente, os bicos dos tordilhões assombraram Darwin enquanto sua esposa rezava ao seu lado; talvez Wegener tenha pensado sobre sua própria idade em uma perspectiva inusitada; …

A Ciência, rodeado do rigor, se distanciava do ócio pensativo, mas quando acontecia a mudança de um paradigma científico, era impossível desvencilhar a reflexão pura e insólita sobre dados hirtos.

Filosofia é algo fácil de atacar, de espinhar … mas somente imbecis eleitos tornam este tipo de agressão uma plataforma política.

As mil facetas de Sidney Lotterby [22]

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Quando não nos encontrávamos, falávamos muito ao telefone. Isto foi comum até 2016.

Numa das conversas, que eu me lembro vagamente, falávamos das vidas devassas de grandes cientistas. Acho que no dia seguinte, gravei este rascunho na minha caixa postal em 29/04/2014:

Você falou, e logo em seguida li estes versos singelos:

DESSERT
There was a young woman named Rhoda
As sweet as a chocolate soda.
It was such a delight
To screw her at night
Then once more at dawn as a coda.

Blissful.

Com exceção do ‘blissful’, o Limerick acima é de Issac Asimov e denota como era o nosso humor neste período, lendo muito (inclusive poesia canhestra na língua inglesa) e achando a vida engraçada.

Lamento que esta mensagem tenha ficado nos rascunhos … acho que ele ia rir um pouco (mais de mim do que das rimas eróticas de Asimov) e quem sabe tivesse alegrado um dia triste dele.

Releituras

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Um amigo disse-me em algum dia atrás que sempre que possível conheça novamente velhas namoradas, principalmente entre lençóis. Ás vezes, o usual mostra outra faceta.

Estou relendo Sandman, agora na versão em inglês, e a terceira história, do arco Prelúdios e Noturnos, foi o que me cativou há trinta anos atrás. O título do arco já é uma referência musical direta, mas quando Constantine é ‘perseguido’ por uma trilha sonora onírica, a tradução da época tentou referenciar a ideia do roteirista, mas não me lembro, nesta releitura, se a fala de Rachel na página 22 fazia a menção a Everly Brothers.

Tal como Watchmen, Orquídea Negra, entre outras HQ notórias, Sandman é um tipo de leitura em que necessita certa bagagem musical.

there’s a bluebird in my heart that
wants to get out
but I’m too tough for him,
I say, stay in there, I’m not going
to let anybody see
you.
there’s a bluebird in my heart that
wants to get out
but I pour whiskey on him and inhale
cigarette smoke
and the whores and the bartenders
and the grocery clerks
never know that
he’s
in there.

Bukowski, filho da puta

Estórias da Caserna [7]

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Muitas vezes, os egos são maiores do que o interesse público…

Numa tarde qualquer, há quase uma década, veio um amigo pedir um auxílio para uma situação emergencial. Ele não tinha nenhuma experiência em como conduzir a situação, e pra ajudá-lo, ocorria uma forte desinteligência entre seu gerente e o diretor da área.

A emergência era uma situação, ainda que com muitas operações e inter-relações com outros setores, era corriqueira para mim pois eu tinha vivenciado aquela situação com outras equipes e contextos diversos.

Ficamos por mais de uma hora e meia conversando, onde eu detalhei não só a sequência da operacionalização mas de quais informações ou pareceres eram necessários para o avanço da demanda em função do tempo exíguo (tínhamos 45 dias aproximadamente).

Fiz, uma lista (check-list) e perguntei-lhe se ele tinha alguma dúvida. Aparentemente, não, pois não me procurou nos próximos 30 dias.

Arrependo-me de não ter formalizado por e-mail o check-list que estipulei para a situação emergencial, pois para minha infeliz surpresa, meu setor recepciona a demanda de forma totalmente contrária ao que falamos por tanto tempo.

Na verdade, era como se tentasse fazer tudo diferente do que eu tinha discutido. Não descarto que minha análise para a situação emergencial contenha mais minúcias do que outro colega poria em questão, mas no âmbito geral, a conduta que orientei era a mais eficaz e célere para o caso em concreto.

Faltando menos de quinze dias para o prazo final, eu fiquei transtornado e mudo olhando para o meu amigo. Quase murmurando, e contendo a frustração ao máximo, perguntei-lhe o que aconteceu (já que perdi duas hora da minha vida para explicar algo que ele não seguiu em quase nenhuma linha). Ele balbuciou informações incoerentes, mas entre o que foi possível contextualizar entendi que seu diretor, sabendo que fui eu que tinha orientado aquele paripassu, inverteu as fases para destacar que quem mandava era ele e não um barnabé.

Os transtornos (administrativos, jurídicos, financeiros, …) ocasionados podem ter sido uma massagem no ego daquele diretor, mas foi um enorme desperdício de tempo e energia.

A prática chicaneira é comum na área pública quando você não quer que determinado assunto ou projeto avance não porque são mal planejados ou custosos além do razoável, mas sim porque determinada pessoa está envolvida. Como a influência política é preponderante, pessoas são colocadas em funções chave para elaborarem chicanas elegantes e sutis.

The reasonable man adapts himself to the world; the unreasonable one persists in trying to adapt the world to himself. Therefore all progress depends on the unreasonable man.


George Bernard Shaw

Animus injuriandi

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O fenômeno Gentili parece, em certo nível, com o fenômeno Kardashians; quanto mais ‘ruído’, mais faturamento.

Ele, acho, é a pessoa mais limítrofe entre a liberdade e rentabilidade artística, tanto na plataforma televisiva quanto mídia audiovisual na internet. Um prova disso é a forma de como se utiliza do processo penal como tripé para catapultar sua exposição e marketing pessoal.

Uma curiosidade é que ele foi condenado por debochar, além da queixa-crime da deputada alvo, também do rito penal e do serviço público (rasgar a notificação, esfregá-las em suas partes pudendas,…).

Antes deste tipo de replicação, digamos, escatológica, havia duas possibilidades imediatas para Gentili: retirar o conteúdo que gerou a queixa-crime no contexto da conciliação determinada em Lei (solicitado em 2016) ou instar representação junto à Justiça dentro do princípio do art. 5º da Carta Magna brasileira, ainda que a permeabilidade entre os incisos IX e X seja exacerbadamente difusa na nossa jurisprudência. A segunda via daria a exposição midiática que ele tanto almeja, mas com menos impacto nos trends topics dos serviços de internet.

Contudo, o caminho assumido foi outro, com uma reação sexual recheada com adjetivos do nível de ‘puta’, numa rede social de ampla audiência, Gentili forneceu elementos suficientes para a tipificação penal. É difícil de discernir se ocorreu orientação advocatícia entre os atos, mas com certeza a exposição midiática foi um sucesso.

A juíza destacou ipsis litteris em sua decisão esta reação:

“Sendo assim, Maria do Rosário, chegando minha cartinha, abre ela, tira o conteúdo, sinta aquele cheirinho do meu saco e abra a bunda e enfie bem no meio dela tudo isso aí que eu estou mandando para você. Tchau! (em seguida, são executadas as vinhetas: “Eu quero gozar!” “Danilo”!)”

Está claro que o excerpto acima possui vários contextos, menos o de teor humorístico.

A juíza ainda destacou:

No fluxo do substrato expendido, se a intenção do acusado não fosse a de ofender, achincalhar, humilhar, ao ser notificado pela Câmara dos Deputados, a qual lhe pediu apenas que retirasse a ofensa de sua conta do Twitter, o acusado poderia simplesmente ter discordado ou ter buscado a orientação jurídica de advogados para acionar pelo que entendesse ser seu direito.”

Ao mesmo tempo, o dispêndio da queixa-crime que a deputada provocou e os efeitos quando da execução da pena (uma comutação da mesma é muito provável neste caso), reforçam o argumento de ‘desproporcionalidade’ aventada por Gentili para o seu denominado ‘humor ácido’.

É claro que as circunstâncias são, para dizer o mínimo, peculiares, em que percebe-se nos temas de combatividade da deputada uma tendência misoginista de seus algozes (virtuais ou não). Isto ficou muito mais acentuado por sua altercação verbal com um extremista em 2014, quando ela se tornou um mote para deboches e agressões.

Vale ressaltar a minha incredulidade quando li ameaças não só para a deputada mas para sua filha.

Neste contexto, percebo que a continuidade da queixa-crime é ‘dar palanque’ para Gentili demonstrar sua ‘acidez’. Ao mesmo tempo, é necessário repelir ataques que possam oferecer um salvo-conduto para um aumento da escalada de atos lesivos (virtuais ou não). É um impasse individual que passa por qual é a aceitabilidade da lesão em função dos possíveis resultados sociais.

Achar um meio-termo (jurídico ou não) sempre será assunto para discussão, mas acho que quando a pessoa ganha muito mais dinheiro por querelas frívolas do que avançar a compreensão comunitária sobre liberdade de expressão, é um critério de julgamento de valor para tempos de redes sociais.

The object of this Essay is to assert one very simple principle, as entitled to govern absolutely the dealings of society with the individual in the way of compulsion and control, whether the means used be physical force in the form of legal penalties, or the moral coercion of public opinion. That principle is, that the sole end for which mankind are warranted, individually or collectively, in interfering with the liberty of action of any of their number, is self-protection. That the only purpose for which power can be rightfully exercised over any member of a civilised community, against his will, is to prevent harm to others. His own good, either physical or moral, is not a sufficient warrant. He cannot rightfully be compelled to do or forbear because it will be better for him to do so, because it will make him happier, because, in the opinions of others, to do so would be wise, or even right. These are good reasons for remonstrating with him, or reasoning with him, or persuading him, or entreating him, but not for compelling him, or visiting him with any evil in case he do otherwise. To justify that, the conduct from which it is desired to deter him must be calculated to produce evil to some one else. The only part of the conduct of any one, for which he is amenable to society, is that which concerns others. In the part which merely concerns himself, his independence is, of right, absolute. Over himself, over his own body and mind, the individual is sovereign.

John Stuart Mill – Sobre a Liberdade

disponível em<https://eet.pixel-online.org/files/etranslation/original/Mill,%20On%20Liberty.pdf>

Angst, hasse, …

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Acho periclitante quando seus temores se concretizam.

Os resultados macroeconômicos do último semestre de 2018 e as tendências do mercado para o segundo semestre de 2019, indicam uma tormenta perfeita a menos que os gestores públicos escolham bem os fomentos econômicos e políticas públicas que gerem crescimento, captação de capital estrangeiro e, quiçá, avanços na distribuição de renda e desenvolvimento sustentável. Do contrário, que Janus nos proteja…

Numa realidade distópica conduzida por tweets e funcionários públicos demitidos por aplicarem multas ‘ideológicas’ surpreende-me a permanência da retórica da mentira e do viés informativo ao invés de ações/atos coerentes para avanços democráticas.

A visita desastrosa de Israel da semana passada, além de uniformizar mais o sentimento de vergonha para a população brasileira, vimos repetições de mentiras eleitorais que entendíamos como estratégias marketeiras
inescrupulosamente cruéis.

A revista ‘Época’ referenciou em sua edição de 18/09/2018 um registro histórico que, pensava eu, iria diminuir o ruído ao redor sobre os movimentos ideológicos que conduziram Hitler ao poder e a uma copiosa carnificina baseada essencialmente no ódio e na intolerância. A reportagem da ‘Época’ é um mirror de mesmo sentido do ‘jornal britânico The Guardian’ publicado em 17/09/2007.

Qual a surpresa em ouvir/ler de funcionários públicos, ignorando totalmente a situação crítica, não só no aspecto humanitário, mas geopolítica entre Israel e a Palestina, afirmarem que a ideologia da Alemanha nazista da Segunda Grande Guerra era de esquerda, socialista, …

Na mesma semana, ocorre o desatino do governo federal de replicar um vídeo que consistia de um misto de saudosimo e elegia a um período negro da História Brasileira onde o Estado de Direito foi suprimido. Isto tudo criou em mim a incapacidade de lidar com tamanhas asneiras sem infringir a Lei de Godwin

Em “Mein Kampf”, Hitler usa a palavra persistência com certos enfoques:

The only way to achieve success is through a constant and regular use of violence. This persistence can only happen with a definite intellectual and spiritual conviction backing it up. All violence not founded on a solid spiritual or intellectual basis is indecisive and uncertain. It lacks the stability that can only live in a fanatically intense world concept. It flows from the energy and brutal determination of an individual.

http://der-fuehrer.org/meinkampf/english/Mein%20Kampf%20(Ford%20Translation).pdf (p. 267)

Eu tenho uma leitura pessoal para o contexto de ‘violência’ nas palavras de Hitler, onde desconstruir a identidade cultural, religiosa ou política de alguém é uma forma bastante elaborada de violência. Descontrução por falácias ou mentiras é carro-chefe em rede sociais. Descontrução da pluralidade da informação é uma forma sutil de atacar a Imprensa Livre e homogenizar o senso comum. And so on…

O trecho mais contundente quanto à persistência (erroneamente atribuido a Goebbels) é:

But the most brilliant propagandist technique will yield no success unless one fundamental principle is borne in mind constantly and with unfiagging attention. It must confine itself to a few points and repeat them over and over. Here, as so often in this world, persistence is the first and most important requirement for success. [meu grifo]

http://childrenofyhwh.com/multimedia/library/Hitler/mein-kampf.pdf (p. 187)

Com estes excertos na memória, foi vexativo a repetição oligofrênica de fake-news por um chanceler brasileiro no contexto de visita ao Museu Yad Vashem de Jerusalém.

Em ‘Mein Kampf’, Hitler repete exaustivamente ataques contra o socialismo e o marxismo, onde ainda no início do livro ele regurgita:

I announced my conviction that the future of all Germans depended on destroying Marxism.

No momento em que as pessoas bolçam intolerância e ódio abertamente, vincular o marxismo/comunismo, tendo à frente um amplo gradiente de ideologias e diversas fontes históricas, a um único espectro político definido, é de raciocínio torpe.

Mas se a repetição deu certo com o Kit-Gay e para o ‘incesto/estupro obrigatório para a prática do comunismo’, imaginem o que se pode “repetir”, digo, “compartilhar” daqui por diante.

Freude trinken alle Wesen
An den Brüsten der Natur,
Alle Guten, alle Bösen
Folgen ihrer Rosenspur.

Beethoven, sempre ele …

As mil facetas de Sidney Lotterby [20]

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Um dia … há muito tempo … sai de um consultório médico e decidi ir à pé para um shopping. Lá, tinha uma loja de CD (algo que não existe mais) e eu precisava aguardar a minha esposa sair do serviço, então nada melhor do que olhar se tinha alguma ‘coisa’.

Lá chegando, surpresa! A loja estava liquidando todo o seu estoque.

Curioso, entrei e comecei a surtar de maneira sutil e controlada. Como eu tinha um celular que pesava uns 800 gramas e com carga, liguei para o Maurício e, de forma pausada mas histérica falei que ele tinha que vir naquele momento. Eu balbuciava tão freneticamente que foi o suficiente para tirar o Maurício de casa pois acreditou que eu estava tendo algum tipo de convulsão.

Ele me encontrou em estado delusional próximo ao Horácio Tomizawa DeBonis que, acho, ainda tocava a ‘801 Discos’ na Duque de Caxias. Não era amigo do Horácio, mas do quanto vendemos a alma para comprar na loja dele, deveríamos ter tido nossas estátuas num altar no frontispício da entrada.

Só que éramos pobres… e tivemos que ‘selecionar’ o que o nosso bolso podia levar.

Ouvimos dentro da loja e gostamos de Morphine, que foi a melhor surpresa daquela tarde:

http://www.zebeto.com.br/2019/03/24/couve-para-mark-sandman

Anos depois, eu olhava os discos que deixei de comprar naquele dia e lamentava para as moscas.

Tell the kids get to grips
Don’t wanna buy or eat no more
The kings road shopper make us poor
Time is running out for us
I’ts just a fake make no mistake
A rip off for you but a rolls for them

Sham 69 – Rip Off

As mil facetas de Sidney Lotterby [21]

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Uma coisa que o Maurício adorava tanto quanto música era filmes.

Toda história que transcendesse um dilema ou um conflito moral era para ele algo que valia a pena em repetir, comentar e fomentar conversas etílicas.

Em comum entre nós, era que nunca tínhamos assistidos ‘O poderoso chefão’ (*), mas quando falava de cinema independente ele te inundava de referências e falava (sinopticamente o suficiente para criar um spoiler) sobre o enredo e os principais aspectos que valia a pena em assistí-lo.

Ele não era afetado por “O Iluminado” ou “Drácula”, mas ele adorava “O Jovem Frankenstein” com os trejeitos magistrais de Feldman e Wilder. Não gostava . Filmes do genero ‘Slash’ não era do seu gosto mas ele tinha documentários que fabricavam crises de ansiedade como o famoso ‘Shake hands with the devil’. Ele adorava comédias mas era improvável que assistisse uma de Adam Sandler; por outro lado, citava de memória quase que como um roteiro/script diálogos de Monty Python.

Hoje, li que o novo filme de Jim Jarmusch (The Dead Don’t Die) trará, além das referências musicais que JJ insere no seus filmes, Iggy Pop, RZA (Wu-Tang Clan), Selena Gomez e Tom Waits como partícipes na película.

É anacrônico dizer isto hoje, mas este seria um filme que ele compraria sem dúvida nenhuma.

Mas ‘comprar’ seria difícil … pois a geração do streaming não quer mais ter uma prateleira ou estante em sua sala cheia de livros e filmes … quer ter um vaso ao lado de fotos ‘top’…

… acho que ele teria que assinar algum serviço de streaming, pois se era difícil comprar os filmes dele (Jarmusch) há 20 anos atrás ou piratear em VHS quando passasse na TV Cultura, nos dias atuais seria garimpar ouro de tolo …

There’s a place where everyone can be happy
It’s the most beautiful place in the whole fuckin’ world
It’s made of candy canes and planes
And bright, red choo choo trains
And the meanest little boys
The most innocent little girls
And you know, I wish that I could go there
It’s a road that I have not found
And I wish you the best of luck, dear,
Drop a card or letter to my side of town
‘cause there’s no time for fussing and fighting my friend
But baby I’m amazed by the hate that you can send
And you
Painted my entire world
But I
Don’t have the turpentine to clean what you have soiled
And I won’t forget it

You – Bad Religion

(*) eu tinha a vantagem de ter lido o livro que inspirou a famosa trilogia, e não queria estragar a minha memória literária com uma adaptação canhestra para a película. Depois de tantas resenhas, referências cruzadas e comentários sobre o segundo filme, estou pensando em experimentar mas terá que ser com pipoca com pimenta e com a Liz ao meu lado. 🙂

Estórias da Caserna [6]

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Sofri abuso sexual quando tinha de 9 para 10 anos. Além disso, uma infância e pré-adolescência com carências, onde à mesa da família estava o fiado servido. De sabor mais amargo, eram as ‘doações’ de familiares que geralmente eram acompanhadas da sobremesa da humilhação ‘é só isso o que tem pra comer?’. Frases como ‘se você trabalhasse, teriam mais comida’ deveriam ser mais equilibradas quando direcionadas para uma criança de 12 anos. Eu ouvi demais isso. Comecei a trabalhar com 15 anos e antes de entrar na minha atual ocupação, desempenhava um cotidiano de servente/auxiliar de construção civil. Como já escrevi, apesar de ter segundo grau completo, o meu analfabetismo funcional era um grande obstáculo.

Isto criava em mim uma vontade enorme de alienar-se da realidade, de ficar o mínimo possível em meu lar, de interagir menos ainda. Um exemplo triste desta época, é o Museu de Arte Paranaense, onde eu ficava perambulando até o horário de fechamento.

Mas até aí, minha vida era miserável como a imensa maioria de pessoas que eu conhecia.

Nestas perambulações, acabava indo para oportunidades que alimentavam esta alienação. Em 1991 conheci Weoraun. Ele foi o primeiro colega com que tive intimidade o suficiente para ver que a minha realidade, que minhas experiências não eram tão ruins (empatia+simpatia) quanto eu pensava.

Muitas vezes eu o acompanhava e auxiliava num cotidiano de esforço e resiliência para atuar como arrimo para diversas pessoas, e muitas vezes compartilhava de suas preocupações nos raríssimos momentos em que ele desabafava.

Anos depois, através de seus contatos de resiliência, ele acabou tomando um caminho que era comum para um funcionário público, se apegando ao poder para melhores provimentos. Ficamos felizes por ele ter tido esta oportunidade.

Contudo, em algum tempo depois, pequenas olvidações levara-o a uma nova instabilidade financeira que ele tanto lutou para subjugar e que impediu de ajudar a quem ele mais amava, nesta etapa ele mesmo compondo uma família.

Neste processo, nos afastamos um pouco, mas não perdemos contato. Ele ainda me envia artigos e posts de ‘Ciência Esotérica’ e eu tento responder sem transferir para ele um ceticismo emperdenido.

Apesar de tudo o que passou e ainda passa, mantém o mesmo perfil brincalhão quanto a vida e ao futuro.

Let me speak personally. By the grace of God I managed the leap when I was in my teens. For me it was then bound up with an ugly Protestant fundamentalism. I outgrew this slowly, and eventually decided I could not even call myself a Christian without using language deceptively, but faith in God and immortality remained. the original leap was not a sharp transition. For most believers there is not even a transition. They simply grow up accepting the religion of their parents, whatever it is.

Martin Gardner

Metacultura

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Eu tenho alguns hábitos para consumir cultura … um é comprar livros, quando não recomendados por amigos, pelas referências que constam no índice, criando uma imagem mental que eu posso chamar de ‘preconceito de livros’.

Já comprei CDs por ter determinada música cover … ou por ter determinada colaboração (se não gostasse de Metal, ainda compraria ‘Roots’ pela curiosidade em saber como soaria Carlinhos Brown e Sepultura juntos).

Geralmente eu afirmo que determinados diretores ou roteiristas de filmes são grandes promotores de músicas, citando a ‘assinatura’ de um Alan Parker ou dos irmãos Cohen nas trilhas sonoras de suas obras. Ainda, o primeiro filme que assisti de Jean-Pierre Jeunet, na saudosa TV Cultura, foi ‘Ladrão de Sonhos’ (La cité des enfants perdu), e fui apresentado à voz, já azinhavrada, de Marianne Faithfull que não conhecia na época. Jeunet faria das trilhas sonoras uma surpresa à parte para quem assistia a seus filmes mais, digamos, pessoais. Alien – ressureição poderia ter sido bem diferente se ele tivesse tido maior liberdade musical. 🙂

Nesta semana, assisti três trailer de filmes/séries… Stranger Things, Toy Story 4 e Chilling Adventures of Sabrina … e a música tema destes trailers foram suficientemente cativantes para alguém que gosta de música e conhece as letras …

… é uma boa notícia quando ouço música velha e me empolgo com coisas novas.

Each way I turn I know I’ll always try

To break this circle that’s been placed around me

From time to time I find I’ve lost some need

It was urgent to myself, I do believe

Up, down, turn around

Please don’t let me hit the ground

Tonight, I think I’ll walk alone

I’ll find my soul as I go home

Temptation – New Order

As mil facetas de Sidney Lotterby [19]

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Houve um período, antes da Sertralina aquela ingrata, que era difícil ajustar a medicação e os efeitos colaterais para o Maurício. Desde sentir na pele uma puberdade perene, uma barba alopética e colocar hidróxido de alumínio no churrasco de domingo, as alterações de humor eram as mais afetadas.

Quem convivia com ele já sabia que as inconstâncias eram também desencadeadas por uma ligação, uma palavra, um acontecimento, mas a medicação cobrou um preço muito alto.

É claro que fatos engraçados aconteciam neste contexto … um historieta …

Eu e minha esposa morávamos numa casinha de madeira pré-fabricada e tínhamos ganhado uma lavadora de roupa usada do chefe dela. Conversando com o Maurício do quanto estávamos felizes com aquele presente e expus que estava em dúvida de qual o melhor lugar para instalá-la. Ele apresentou-se para ajudar e já fez uma pequena lista do que seria necessário para a instalação.

No final de semana combinado chegaram na sexta-feira à noite o Maurício, O Brunhildo, o Julião. Era uma viagem e tanto naquela época, pois os horários de ônibus precários e a distância tornavam a nossa casinha tão distante, mas tão distante, que só a amizade poderia suplantar tal empreita. (ô textinho piegas, né?).

Compramos frango empanado (estas coisas industrializadas de sobras de avicultura não tem gosto de frango, mas era ‘comfort food’ de pobre) e cerveja como prato principal. Eu tinha uma tequila em casa para completar os acompanhamentos.

O prato principal estava no meu quarto, e neste ponto preciso explicar porque eu falo ‘casinha’, pois era uma edificação pré-fabricada de aproximadamente 34 m² (quase 36 m² se somasse o banheiro). Se olhasse a arquitetura de chalé, sabia que a perda de espaço útil era enorme. Logo, o meu quarto era acessado por uma escada de madeira (muito famosa na família) com grau de declividade acima de 60º. No meu quarto, ficavam o computador, todos os livros, todos os CD, os DVD e sobrava espaço para uma cama e um pequeno guarda-roupa.

Eu tinha comprado umas caixas específicas para CD e DVD, principalmente para facilitar os ‘translados’. Então, comecei a descer às caixas de CD e DVD que seriam o prato principal, geralmente eu separava uma caixa com algumas das ‘últimas’ novidades que seria a ‘entrada’.

Naquela minúscula sala/cozinha ficamos nós cinco comendo e bebendo e alternando CD e DVD conforme a conversa fluia. Para o Julião, muita coisa era novidade e sua curiosidade só instigava o Maurício com um frenêsi de troca de músicas e comentários sobre blues, rock, mpb, samba, metal…

A Liz antes de ir dormir, preparou algumas acomodações rudimentares para abrigar todo mundo e deixou uma garrafa de café para acompanhar a cerveja. Já era umas dez da noite quando despediu-se. Neste momento, o Maurício pediu o disco X, Y e Z e ‘aquele’ livro.

Lá fui eu buscar mais algumas caixas e livros. Baixamos um ‘pouco’ o som e continuamos o frenêsi embolado de piadas, comentários e música.

Num certo momento entrou na vitrola o musical ‘The Rolling Stones Rock and Roll Circus’, onde cada banda e cada verso era exaustivamente comentado. Como sempre, ‘Simpathy for the devil’ era a cereja do bolo.

Num certo momento, ouvindo a ‘Sociedade da Grã-Ordem Kavernista Apresenta Sessão das 10, o Maurício perguntou ‘daquele’ disco da Míriam Batucada. Falei que não podia subir no quarto e acordar a Liz para buscar o CD. Ele ficou muito incomodado.

Durante a madrugada, o Brunhildo subiu para dormir, aí o Maurício,
no ensejo, perguntou novamente do disco da Miriam Batucada. Falei que não ia subir e procurar um CD que não me lembro em que caixa estava.

Ainda consternado, lá ficamos, eu e o Maurício enchendo os pacová do Julião, do punk rock ao progressivo, do blues ao forró. Foi uma noite fria e longa, e o Julião lá pelas 4 da matina com os olhos de farol, embriagado mais de referências do que de álcool, subiu para dormir.

Novamente perguntado do disco da Miriam Batucada, e novamente me recusei a ir.

Lá ficamos, nós dois naquela madrugada, ouvindo mais música e conversando, até que lá pelas 6 e pouco da matina, ele perguntou da Miriam Batucada, onde eu repliquei com baixo calão.

Não deu nem 15 minutos, a Liz desceu pela escada (famosíssima na família) com o CD da Míriam Batucada dizendo:

‘Tá aqui esta bosta!’

Enquanto Liz fazia suas abluções e preparava um novo café, ríamos do ‘timing’ e dos comentários dela que quando acordava levemente ao longo da noite ouvia o Maurício perguntando daquele CD.

Sol já raiado, o Maurício disse:

“Então meu caro, vamos puxar o fio elétrico?”

Antes das 7 da matina, lá estava eu, me arrastando embaixo da minha casinha, puxando cabos elétricos, cansado de ter ficado quase 10 horas ininterruptas ouvindo música e falando bobícias.

Depois de finalizado o serviço, fizemos aquele churrasco básico e continuamos a ouvir os CD o que não foram executados na noite anterior.

Não sei porque, mas não me lembro do que fiz no domingo.

I sit and dwell on faces past, like memories seem to fade
No color left but black and white, and soon will all turn gray
But may these shadows rise to walk again with lessons truly learnt
When the blossom flowers in each, our hearts shall beat a newfound flame

Must it take a life for hateful eyes
To glisten once again?
‘Cause we find ourselves in the same old mess
Singing drunken lullabies

Flogging Mollies – Drunken Lullabies

As mil facetas de Sidney Lotterby [18]

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Quando Bruce Springsteen cantou ‘American Skin (41 shots)’, houve uma repercussão principalmente entre policiais por causa do viés racial de um crime brutal cometido por quatro oficiais.

Numa das madrugadas de 2016 em que tanto conversávamos, Maurício citou esta música e a referência criminal, comentando pela “baixa eficiência da mira da polícia norte americana, com apenas 46% de acerto” em um homem desarmado. Naquela madrugada, comentei sobre um capítulo do livro ‘Blink’ de Malcom Gladwell que cita outro caso famoso de viés racial e resposta totalmente equivocada dos oficiais, pontuando questões mais científicas para aquela tragédia.

Lembro que comentei (ou foi ele?) que seis meses de treino de tiro para iniciar o enfrentamento do stress da Segurança Pública no Brasil é uma ilusão, e víamos que era um padrão recorrente em países com alta taxa de mortalidade por armas de fogo: pouco treinamento, alta letalidade na corporação. Tropas táticas são exceção, mas sua abrangência de atuação também.

Sempre conversávamos sobre Segurança Pública, já que éramos pobres e boa parte de nossas vidas morávamos em regiões conflagradas por criminalidade e sabíamos que nosso visual (cabeludos com camiseta de rock) era um convite para perder a audição com o ‘carinho’ policial.

E sabíamos também que não tinha ninguém fazendo música sobre a juíza Patricia Acioli ou sobre o Amarildo Dias de Souza, porque a polícia no Brasil é o que é.

Eu procurava atenuar o tom sobrio deste tipo de conversa, dizendo-lhe que numa batida policial, ele tinha uma vantagem sobre mim: a cor da pele. Eu sempre apanharia mais e por mais tempo na coça policial …

… pois a cor da pele é o que é.

41 shots, Lena gets her son ready for school
She says, “On these streets, Charles
You’ve got to understand the rules
If an officer stops you, promise me you’ll always be polite
And that you’ll never ever run away
Promise Mama you’ll keep your hands in sight”

(…)
It ain’t no secret (it ain’t no secret)
No secret my friend
You can get killed just for living in
You can get killed just for living in
You can get killed just for living in your American skin

Bruce Springsteen – American skin (41 shots)

DST na merenda escolar

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Um dia li, em algum lugar, um argumento de correlação entre educação sexual e abuso sexual, onde a ausência do primeiro favorece a prevalência do segundo (pesquise no gÜogle “sexual education assault correlation”).

Cito isto pela última tentativa de ‘smokescreen’ do atual governo federal em reeditar cadernos de saúde básica, retirando trechos ‘ideológicos’ e de ‘doutrinação sexual’.

É um péssimo sinal de que o fervor político e as fake news (Kit Gay) prevalecerá sobre estatísticas e fatos.

Pode-se inferir que a incidência crescente de DST, no início das primeiras experiência sexuais para adolescentes e jovens, é resultado da omissão intencional, se assim posso afirmar, de transmitir parâmetros básicos de saúde e educação sexual com foco em prevenção.

Numa analogia canhestra, isto é similar à não estudar Matemática, pois afirma-se que assuntos como Binômio de Newton não são de uso prático, mas com isso não aprende-se a Matemática Básica que evitará que você seja passado pra trás no troco do supermercado. Em Educação Sexual, não fará necessariamente com que você tenha hábitos como Rocco/Cicciolina ou que seja convertido às letras escarlates LGBTI, mas evitará que DST facilmente preveníveis virem pesadelos.

[eu sou bom demais em analogias canhestras…]

Por mais que fatores religiosos sejam o principal obstáculo, não há justificativa moral para impedir que as pessoas tenham acesso a um conhecimento de que será vital para a vida delas, seu bem-estar mental-físico em contrapartida ao custo social (1).

A confusão intencional do atual governo, mascarando uma desdenhosa transfobia, estabelecerá novas diretrizes para uma política de governo perigosa e de profundo impacto a longo prazo.

http://www.soc.ucsb.edu/sexinfo/article/syphilis

One sometimes finds, what one is not looking for. When I woke up just after dawn on September 28, 1928, I certainly didn’t plan to revolutionize all medicine by discovering the world’s first antibiotic, or bacteria killer. But I suppose that was exactly what I did.

 Alexander Fleming

(1) O custo social aqui inserido é de complexa aferição, pois há o custo dos progenitores em reduzir ou interromper seus projetos pessoais (escolarização, principalmente) o que afetará negativamente suas rendas econômicas por toda a vida. Há o impacto ambiental de que uma camisinha pode evitar (USD 1, 00) em função de fraldas descartáveis (USD 1.100,00/year). O impacto direto em saúde básica em função do tratamento de DST como AIDS (USD 200.000,00/treatment) ou Sífilis Congênita (USD 6.700,00/treatment) são os mais discutidos, mas o sofrimento mental destes tratamentos em função da localização geográfica das pessoas e do acesso pleno a serviços de saúde pública é fato de pouca discussão além do meio acadêmico. Este custo é potencializado pela ausência da educação sexual correlacionada a presença dos fenômenos de reincidência da patologia sexual no mesmo segmento etário e/ou social. Entre outros fatores que incrementam este ônus, a Educação Sexual poderia evitar um gasto inútil tanto no aspecto das DST quando de saúde mental, retirando parte da pressão sobre o sistema SUS e otimizando recursos públicos.

So limitless and free

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Eu escrevi sobre ateísmo e morte várias vezes por aqui, mas no último post deixei de mencionar um detalhe muito importante: solidão.

Ser ateísta é ser solitário em muitos aspectos, onde a possível primeira lembrança é que seja no campo de ideias opostas ou de julgamento moral.

Mas ateísmo também significa que sua existência, além de única e finita, traz um sentimento racional de que esta experiência de existir e, em seguida, inexistir, é individualizada ao máximo.

Acho que esta é talvez a principal dificuldade de lidar com uma visão secular: aceitar não só a sua finitude, mas de ‘perceber’ esta finitude sozinho/a. Você até pode conhecer ateístas que tenham ‘percepções’ idênticas ou similares, mas é difícil estabelecer uma congruência das emoções sem aferir as endorfinas. 😉

Pode-se compartilhar posições filosóficas ou tender para contemplação da beleza da natureza, mas olhar a finitude dá uma sensação de incompletude muito idiossincrática, e de difícil reinterpretação.

Uma pessoa que acredita em alguma mitologia religiosa possui a vantagem de não se sentir solitária, pois seu ente (divindade/local/…) imaginário lhe servirá de companhia ao longo de sua existência. Vivem uma ilusão, mas nunca se sentirão sozinhos, mesmo no momento da morte mais atroz possível.

Parafraseando Dennis Overbye, ser ‘um coração solitário no Cosmos’ não é fácil mas é uma desventura ( 🙂 ) incrível.

I believe the simplest explanation is, there is no God. No one created the universe and no one directs our fate. This leads me to a profound realization that there probably is no heaven and no afterlife either. We have this one life to appreciate the grand design of the universe and for that, I am extremely grateful.

Stephen Hawking

As mil facetas de Sidney Lotterby [16]

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Maurício era o único cara com quem convivia que realizava/praticava o ceticismo científico no cotidiano …

… uma historieta…

Um dia meu chuveiro parou de funcionar. Pensei: ‘vou trocar a resistência’, mas naquela semana o Maurício passou o final de semana em casa e ficou cético de que poderia ser a resistência.

Pegou a escada e …

… verificou a conexão da rede elétrica ao chuveiro;

… verificou a conexão da distribuição do circuito para o chuveiro;

… verificou o disjuntor quanto a alguma transiência (ligar e desligar o mesmo);

Até que ele pegou a chave philips e começou a tirar o batente do quadro de distribuição elétrica…

Pensava que ele estava exagerando neste ponto, quando desmontava a conexão do disjuntor do circuito do chuveiro e viu o problema: um curto que ocorreu num dos polos do disjuntor.

Pra quem conhecia o Maurício, após muito tempo e esforço, percebia-se nele uma satisfação em ser capaz de ter encontrado o problema sozinho.

Por sorte, eu tinha mais um disjuntor de 32A (para uma oferta de 220V), o qual ele substituiu.

O raciocínio dele foi uma navalha de Ockam, onde a probabilidade de estar utilizando a carga nominal máxima do equipamento (era verão); de estar subdimensionado a bitola do cabo em função da carga e distância do disjuntor e equpamento (ele revia os cálculos no mínimo três vezes para coisas simples, imaginem para outras áreas …); de conexões negligenciadas ao longo do segmento elétrico; fornecia argumentos para a improbabilidade que fosse a resistência como causa primária.

Após a substituição do disjuntor, ele ainda pediu desculpas pois a causa do curto-circuito, na época em que ele montou, era de que o parafuso de fixação do cabo no polo estava frouxo.

Tô com aquela resistência até hoje em casa, esperando o chuveiro ‘queimar’…

I don’t believe that people should take their own lives without deep and thoughtful reflection over a considerable period of time. I do believe strongly, however, that the right to do so is one of the most fundamental rights that anyone in a free society should have. For me, much of the world makes no sense, but my feelings about what I am doing ring loud and clear to an inner ear and a place where there is no self, only calm.

Excerpt of the suicide note of Wendy Williams (The Plasmatics)

Lullaby

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Lay your sleeping head, my love,
Human on my faithless arm;
Time and fevers burn away
Individual beauty from
Thoughtful children, and the grave
Proves the child ephemeral:
But in my arms till break of day
Let the living creature lie,
Mortal, guilty, but to me
The entirely beautiful.

Soul and body have no bounds:
To lovers as they lie upon
Her tolerant enchanted slope
In their ordinary swoon,
Grave the vision Venus sends
Of supernatural sympathy,
Universal love and hope;
While an abstract insight wakes
Among the glaciers and the rocks
The hermit’s carnal ecstasy.

Certainty, fidelity
On the stroke of midnight pass
Like vibrations of a bell,
And fashionable madmen raise
Their pedantic boring cry:
Every farthing of the cost,
All the dreaded cards foretell,
Shall be paid, but from this night
Not a whisper, not a thought,
Not a kiss nor look be lost.

Beauty, midnight, vision dies:
Let the winds of dawn that blow
Softly round your dreaming head
Such a day of welcome show
Eye and knocking heart may bless,
Find the mortal world enough;
Noons of dryness find you fed
By the involuntary powers,
Nights of insult let you pass
Watched by every human love.

Auden, meu velho, vamos beber do amor hoje…


Você é a menina dele …

Pasta de Alho

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O programa da semana passada de Hassan Minhaj e o documentário “Behind the Curve’ (ambos da plataforma Netflix) me lembraram de algumas estorietas de quando era ‘pequeno’ …

Quando meu pai teve uma entorse no tornozelo jogando futebol, ele foi numa benzedeira e, à noite, um colega dele veio à nossa casa para aplicar uma untura na região edematosa, enfaixando em seguida com uma pasta verde que parecia um bolo ruminal recém-regurgitado.

Nas muitas crises respiratórias por gripe, bronquite e outras ‘ites’ que tive, acho que estes episódios deviam gerar muita preocupação para minha mãe pois toda noite, uma pasta de alho aromatizada com gengibre, mel e folhagens fitoterápicas, era colocada num lenço e amarrado no meu pescoço.

Imaginem o meu Cheiro-de-Corpo na manhã seguinte.

Estudei em escola pública no ensino médio, e lá obtinha notas altas em Matemática, Biologia e Física. Apesar disso, não passei no vestibular para Farmácia-Bioquímica (paixão de adolescente) quando tentei na primeira vez. Quando entrei na faculdade num curso de baixa concorrência por vaga mas de alta exigência acadêmica, não quis aceitar que passei 4/5 da minha vida escolar ‘aprendendo’ coisas que muito depois me classificaria: analfabeto funcional. A minha ótica religiosa católica/protestante me dizia que com muito trabalho duro eu conseguiria auferir sucesso. Só que não; não se faz uma ferrari com peças usadas de um carro popular, e meus anos na faculdade foram para compensar o que não aprendi em 13 anos de ensino e, nesta perspectiva, foi uma tremenda perda de tempo, de recursos públicos e de capacidade econômica (eficiência). Olhando os parâmetros curriculares da época e pelo o que REALMENTE aprendi, posso dizer que lamento não ter superado os obstáculos.

Hoje acho engraçado pensar em como tinha tudo para dar errado na minha vida (péssima educação¹, pouco acesso à saúde básica, …). Tive sorte neste processo, mas como Blanche DuBois, ‘sempre dependi da bondade de estranhos’.

Voltando à saúde e educação …

Na parte da saúde, a Big Pharma mudou muito a realidade retratada. Mas benfeitorias só aparecerem em balancetes de lucro para o quadro societário. Ainda é caro ter uma boa saúde, mas se automedicar não.
Mas isto é outra estorieta … Associado à baixa qualidade educacional está a estagnação econômica do poder de compra de parte da população, o que é um quadro favorável para medicinas ‘naturais’ ou ‘complementares’ se oferecerem como opções ‘baratas’ neste cenário.

Minha perspectiva é que agora temos um tipo de pobreza que não existia então. Antes, ser pobre era utilizar pasta de alho ao invés de Vick Vaporub. Era utilizar benzedeira ao invés de diclofenaco potássico. Era acreditar que era ‘educado’ suficiente para obter um bom emprego e ‘manter’ uma família quando não era além de mais um analfabeto funcional.

A pobreza que se destaca hoje, é pela negação do Conhecimento Científico, pelo desprezo pela Liberdade de Pensamento e da Imprensa, pela valorização dos vieses de confirmação e adotar uma atitude Dunning-Kruger que o deixe exposto a argumentos de terraplanistas, de anti-vaxxers e de comunistas-comedores-de-criança em pleno século XXI.

O número crescente de pessoas que estão mortas ou matando em função de crenças em óleos curativos, dietas estúpidas, religiões mais estúpidas e teorias de conspiração, é surpreendente.

O nível de diplomas associado a este fenômeno me espanta ainda mais, o que denota que precisamos fazer uma reforma do sistema educacional baseado em propósitos para necessidades contemporâneas (os países nórdicos estão fazendo isto neste momento), como Dewey provocou em sua época.

Quero ser otimista como Steven Pinker, mas cada vez mais penso nos ‘colapsos’ de Jared Diamond.

¹ Numa era de fake news, está bastante claro que anos de escolaridade não significa melhor educação.

You cannot teach today the same way you did yesterday to prepare students for tomorrow.

John Dewey

O tell me the truth about love

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O tell me the truth about love.

Some say love’s a little boy,
And some say it’s a bird,
Some say it makes the world go round,
Some say that’s absurd,
And when I asked the man next door,
Who looked as if he knew,
His wife got very cross indeed,
And said it wouldn’t do.

Does it look like a pair of pyjamas,
Or the ham in a temperance hotel?
Does its odour remind one of llamas,
Or has it a comforting smell?
Is it prickly to touch as a hedge is,
Or soft as eiderdown fluff?
Is it sharp or quite smooth at the edges?
O tell me the truth about love.

Our history books refer to it
In cryptic little notes,
It’s quite a common topic on
The Transatlantic boats;
I’ve found the subject mentioned in
Accounts of suicides,
And even seen it scribbled on
The backs of railway guides.

Does it howl like a hungry Alsatian,
Or boom like a military band?
Could one give a first-rate imitation
On a saw or a Steinway Grand?
Is its singing at parties a riot?
Does it only like Classical stuff?
Will it stop when one wants to be quiet?
O tell me the truth about love.

I looked inside the summer-house;
It wasn’t even there;
I tried the Thames at Maidenhead,
And Brighton’s bracing air.
I don’t know what the blackbird sang,
Or what the tulip said;
But it wasn’t in the chicken-run,
Or underneath the bed.

Can it pull extraordinary faces?
Is it usually sick on a swing?
Does it spend all its time at the races,
or fiddling with pieces of string?
Has it views of its own about money?
Does it think Patriotism enough?
Are its stories vulgar but funny?
O tell me the truth about love.

When it comes, will it come without warning
Just as I’m picking my nose?
Will it knock on my door in the morning,
Or tread in the bus on my toes?
Will it come like a change in the weather?
Will its greeting be courteous or rough?
Will it alter my life altogether?
O tell me the truth about love.

Meu amigo Auden, me ajuda a falar da minha melhor amiga …

Você é a menina dele.

Cui Bono?

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Acho incrível a mobilidade narrativa das fake news. Mas o incrível é o tempo de resposta (aka fake news) de alguns grupos contra ‘ameaças’.

Uma estorieta…

Desde que Alexandria Ocasio-Cortez (AOC) se lançou numa senda ativista nas paragens yankees, se altercando com o Donald ‘tinyhands’ Trump, me chamou atenção o suficiente para ler o que aparecia sobre ela no twitter.

Quando chegou ao congresso norte-americano, na sombra do movimento Sunrise, que foca em Mudanças Climáticas, comecei a seguir ela nas mídias sociais, mais por interesse de como eles (democratas, ativistas, sociedade, …) articulariam esta plataforma política contra um status quo (irmãos Koch, money talks and all shit walks, Gerrymandering, fenômeno ‘Dark Money’, …), cuja beligerância econômica é famosa por colocar de joelhos de presidentes a nações.

Até aí nada demais, eu achava … eu estava focando em apreender acertos e erros na política yankee para refletir se algo era aplicável abaixo do Trópico de Capricórnio …

Mas AOC tem levado esta nova plataforma política com foco no tripé da Sustentabilidade (denominada de Green New Deal) num nível de constestação e iconoclastia surpreendente para uma ‘rookie’, trazendo ao debate público figuras notórias, como Bill Gates que comentou recentemente que o foco da sobretaxação deve ser sobre ‘riqueza’ e não ‘geração de renda’ em réplica a postura mais ‘generalista’ dos sunrisers.

A estorieta fica interessante quando começo a receber ataques na forma de fake news contra AOC, no espectro da língua portuguesa, sem NENHUMA tradução.

Aí eu fico muito curioso, o que leva um candango, de inteligência funcional não afeta a pudores morais, pertubado o suficiente por ideologias que são oxímoras, a postar em plataforma de rede social algo que ainda não é do métier da intelligentsia fascista que assola o Brasil varonil? O perfil (branco, idade avançada, blahblah,…) se encaixa nos prognósticos iniciais, com uma dúvida razoável sobre o domínio da língua de Shakespeare. Então …?

Foi aí percebi um contexto interessante das fake news: a sua capacidade de propagação não é afetada por barreiras linguísticas e que as pessoas estão mobilizadas/organizadas em propagar qualquer conteúdo pelo qual o ‘grupo’ decidir.

Sabia do voto de cabresto; agora temos o post de cabresto.

A stupid man’s report of what a clever man says is never accurate, because he unconsciously translates what he hears into something that he can understand.

Bertrand Russel

A morte do dial

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Ricardo Boechat morreu hoje.

Eu e minha esposa temos poucos hábitos ‘religiosos’… e um deles é acordar
cedo, todos os dias da semana, para ouvir as impressões jornalísticas de Boechat na BandNews. Era o nosso referencial para informações e piadas, e quando não ouvia pelo rádio, ouvia pelo canal do Twitter.

A forma como entremeava comentários de cunho pessoal com o noticiário; seus casos anedóticos de experiência jornalística ou não; seus mea-culpa; forneciam um elaborado recorte do que era importante naquele momento. Junto a isso, sua perspectiva de São Tomé dos jornais, criava ao redor dele uma impressão de um tipo de jornalista que possui um tato e sensibilidade para abordar habilmente a notícia mas sem se submeter a clichês ou chavões para alcançar facilmente a audiência.

Além disso, a música de Edith Piaf e a voz empostada de Boechat, serviam de fundo para pedidos de casamento e espinafração geral. As ligações ao vivo que fazia para Dona Mercedes, quer para dirimir dúvidas sobre se a cor dos olhos dele ou quer como se pronunciava determinada palavra espanhola, eram lúdicas e amorosas. Tudo isso agora é história …




Como não ouvir mais sua voz? 

I still feel like I gotta prove something. … There are a lot of people hoping I fail. But I like that. I need to be hated.

Howard Stern

Low-Record Employment

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Há cinco atrás eu acompanhava uma atividade operacional relativamente grande. Uma das equipes supervisionadas por mim efetuava uma das etapas com quatro (04) pessoas na maioria das vezes, variando entre 3 a 5 pessoas.

Hoje, com desemprego e trabalhos temporários como moeda de troca, só tem uma única pessoa (01) fazendo esta mesma etapa.

Descartando aspectos de produtividade, os efeitos da automação e da IA já estão aparecendo: há uma tendência de aumento de empregos/ocupações, mas o nível de exigência de habilidades aumentou na mesma proporção das incertezas (maiores competências não representam maior ganho salarial, em alguns segmentos é ao contrário). Já existem especialistas de RH estudando o fenômento do aumento de estresse ao longo desta tendência.

Junto a este cenário, a recente legislação aprovada no Brasil indica que o fenômeno que já se disseminou nos EUA, de pessoas terem dois, três ou mais empregos, terá um impacto ‘interessante’ na relação população economicamente ativa e ocupações empregatícias em breve.

Na verdade, é um processo de emprobecimento de uma parcela populacional, onde pessoas assumem várias ocupações para ‘manter’ determinado nível sócio-econômico, assumindo jornadas semanais que que ultrapassam 60 horas (vejam o perfil dos profissionais que ‘complementam’ renda como motoristas de aplicativos de transporte urbano). Sofrerão menos os que possuírem múltiplas habilidades, de maior ‘valor’ agregado.

Ao mesmo tempo, atividades ocupacionais de alta demanda intelectual viraram um problema para as corporações, pois com uma dinâmica feroz dos dias atuais, não é mais anunciando a vaga num grande jornal que se obterá a melhor opção ou através de um headhunter, pois os quase não-intelectualmente utilizáveis (adoro esta expressão de Paul Goodman), geram muito mais ruídos nos processos seletivos. Softwares de engenharia social serão uma perigosa necessidade Asimoviana na escolha do(a) engenheiro(a)-chefe de P&D quanto no perfil adequado de um(a) diretor(a) de uma unidade escolar.

Neste processo, os não-intelectualmente utilizáveis padecerão de um modelo econômico que encara eles como excesso, e conceitos humanistas/socialistas como Renda Universal Básica (Universal Basic Income) causarão distopias até que alguém ache uma melhor forma de ter renda e qualidade de vida ao mesmo tempo com um índice GINI=0.

O mais-valia nunca valeu tão pouco para tantos e, valeu tanto para poucos.

The spirit of capitalism is precisely the set of beliefs associated with the capitalist order that helps justify this order and, by legitimating them, to sustain the forms of action and predispositions compatible with it. These justifications, whether general or practical, local or global, expressed in terms of virtue or justice, support the performance of more or less unpleasant tasks and, more generally, adhesion to a lifestyle conducive to the capitalist order. In this instance, we may indeed speak of a dominant ideology, so long as we stop regarding it as a mere subterfuge by the dominant to ensure the consent of the dominated, and acknowledge that a majority of those involved – the strong as well as the weak – rely on these schemas in order to represent to themselves the operation, benefits and constraints of the order in which they find themselves immersed.

Ghost Rider

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É desnecessário falar/escrever sobre Will Eisner. O que ele desenhou e escreveu é incrível e fala por si.

Mas ele não é tão famoso a ponto de eu localizar um poster dele, possivelmente quando trabalhou para o exército norte-americano, uma arte que descrevia a ‘evolução militar’ do veículo jeep. O poster estava desgastado por manipulação e sujeira numa oficina mecânica, e falando com o proprietário da oficina (um amigo e aficcionado por jeeps), falei da relevância daquele artista, da raridade daquele poster, e de que colecionadores e fãs de Eisner pagariam substancialmente se ele tivesse interessado. Deu de ombros e disse que não venderia por nenhum valor. Tentei jogar a semente de proteger melhor o poster, mas passado mais de dez anos, ele continua lá, do mesmo jeito, mais empoeirado até, naquela parede.

O que me trouxe a Eisner e esta estória é a descoberta de um fato sobre uma personagem de HQ que eu lia quando criança: Motoqueiro Fantasma.

A briga da personagem com o coxo-manco era interessante, mas o que é mais interessante é que o artista que o desenhou lá por ’72 era o desenhista Mike Ploog, definindo características visuais que perdurariam por décadas no universo MCU. Mas se olhar atentamente para as capas e revistas daquela época, verá que o enquadramento e a narrativa dos desenhos se destaca em comparação com outros artistas, e se aparenta muito com a narrativa peculiar de Eisner. A semelhança é pelo fato que eles trabalharam juntos anos atrás.

Os desenhos de Ploog (Google Images fornece uma substancial amostragem), permeados de temas como o sobrenatural e o terror, são obras que fazem frente com o trabalho de seu antigo mentor.

The zombies were having fun
The party had just begun
The guests included Wolf Man
Dracula and his sonThe scene was rockin’, all were digging the sounds
Igor on chains, backed by his baying hounds
The coffin-bangers were about to arrive
With their vocal group, “The Crypt-Kicker Five”

Monster Mash by Bobby Pickett

Estórias da Caserna [6]

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As vaidades são inúmeras em determinados ambientes de trabalho. Em alguns casos, é perfil obrigatório. Mas a vaidade combinada com ignorância é a receita perfeita para dar tudo errado.

Há muito tempo atrás, mas muito tempo atrás, foram efetuadas determinadas alterações na edificação e, ignorando parcialmente a demanda do setor técnico, foi escolhido que a infraestrutura de telecomunicações (sem os arapongas, é claro) e de TI fossem alocadas em condições, digamos, estritas.

O tempo foi o professor para explicar a todos que as decisões baseadas em conveniências de vaidosos tinham um alto custo. Um dos (inúmeros) problemas, era que os ambientes não conseguiam manter um climatização naturalmente estável. Aí um indouto arrotou alto:

‘-Vamos colocar películas nos vidros da janela!’

Piorou a situação … como ‘efeito estufa’ não combina com placas permeadas de transístores, um ignaro garganteou:

‘-Coloquem ventiladores!’

Se ventilação mecânica fosse eficaz, por que gastam tanto com refrigeração à Nitrogênio em TI?


É claro que os diálogos acima são exagerados, na verdade foram muito piores do que eu descrevo.

Até que o problema chega na minha ‘alçada’: deveria planejar e operacionalizar a compra de condicionadores de ar para os ambientes.

Como eu não sabia nada sobre isso e nem que existia a NBR 16401 (atualmente NBR 16655), caí no mundo para tentar cumprir o que foi solicitado. Entre as conversas com os profissionais (internos e externos) e minha pesquisa, identifiquei alguns pontos críticos:

-dúvida razoável quanto ao dimensionamento da rede elétrica ser capaz de suportar a demanda dos equipamentos;

-a localização geográfica dos ambientes (incidência solar, principalmente) ‘escalonava’ o dimensionamento de energia para cima.

-etapas prévias de preparação da parede e da rede elétrica deveriam ser efetuadas de forma de que durante a ausência de vedação na edificação não gerasse risco em função de intempéries.

Com o dimensionamento energético que entendia adequado (hoje eu faria totalmente diferente daquela época), encaminhei para a ôtoridade, chamemo-la de Nemain, que em sua análise vaidosa e em sua ignorância, entendeu que deveria ser refeito o dimensionamento dos equipamentos, para modelos inferiores e que fosse agregado um novo equipamento para as dependências onde ficava a mesa de Nemain com um
dimensionamento energético quatro vezes maior.

Meus amigos, imaginem você perder ‘saliva’ ao telefone, e-mail e em conversas pessoais com fornecedores e técnicos, fora o tempo para preencher/digitar a papelada quase infindável de formulários, justificativas técnicas e jurídicas, pra chegar uma candanga que não saberia definir as diferenças da unidade condensadora da evaporadora, mas que tem a soberba de alterar discricionariamente tudo, do objetivo principal até as especificações, já que não era justo climatizar uma sala de rede de computadores e não a dela.

O desperdício de tempo (e recursos públicos associados) é ofensivo, mas fui lá atender as vaidades da Nemain (com costas mais quentes que os chifres do pé-fendido).

Num certo momento desta minha desditosa atividade, alguém viu que os devaneios de Nemain era isto mesmo, devaneios. E só autorizou a aquisição dos condicionadores de ar para os ambientes informatizados com um detalhe: com as especificações diminuidas por Nemain (!!!).

No verão seguinte, com demanda energética subdimensionada, os equipamentos trabalhavam ininterruptamente (imaginem a conta de luz), e a unidade evaporadora não conseguia dar cabo do serviço. Logo, o equipamento congelava na placa-filtro gotículas de vapor d’água que, ao longo do tempo, acumulavam-se, vedando a circulação de ar na unidade. E com o superaquecimento, o equipamento desligava automaticamente. No dia seguinte quando o gelo derretia, os técnicos encontravam o equipamento desligado (dava pra fritar um ovo nas placas de transístores), e aquela poça de água, gerada pelo degelo, no chão junto aos cabos elétricos.

Esta situação assim ficou por incríveis dois anos. Foi um episódio de sorte, onde tudo poderia dar errado, mas não deu.

Se não for o Senhor o construtor da casa, será inútil trabalhar na construção. Se não é o Senhor que vigia a cidade, será inútil a sentinela montar guarda.

Salmos 127:1

“It is a tale told by an idiot, full of sound and fury signifying nothing.”

Macbeth, sobre o Sentido da Vida

The Key of Hell

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Quando criança lia muito HQ. (Sim, o fato de não ler livros de matemática, geografia, literários junto com uma massiva jornada de ver televisão da década dos anos 80 criaria um fardo de anorexia intelectual que eu levaria décadas para reparar. Continuo o mesmo hoje, só troquei a TV pelo Streaming , e leio um pouquito, mas o suficiente para uma vida de qualidade .)

Lia bastante Zagor, Tex e Ken Parker. Dos dois primeiros, existia uma temática fantástica de sobrenatural (ainda vou me aprofundar nas motivações dos roteiristas), em que os conflitos das estórias se resolviam,
geralmente, na bala ou na altercação de socos.

Com este fundo extranatural, nos versos da capa e contracapa dos ‘gibis’, tinha propagandas de diversas afinidades e interesses, e era comum a propaganda de livros de ocultimos. Era um tipo de ‘venda casada’, Tex Miller enfrentava Mefisto e no verso da capa aparecia propaganda de algum tipo de prática oculta.

Imaginem, na cabecinha daquela pequena nódoa de DNA humano que eu era, observador rigoroso de rituais cristãos, lendo aquelas propagandas de umbanda, feitiços de amor e sexo e sobre São Cipriano.

E de São Cipriano, veio algumas fobias de infância fortes, onde mais temia o Livro Negro de São Cipriano do que do próprio coxo-manco, i. é, do pé-fendido eu sabia do que ele era capaz, mas de algum conhecido em posse daquele livro não.

Rio de mim mesmo quando lembro disso. Mas fico imaginando a quantidade de pessoas que como eu acreditavam naquilo a ponto de comprar os livros. Eu não cheguei a comprá-los pois eram muito caros para mim; mas se eu tivesse oportunidade de ter acesso, talvez, tivesse hoje bigodes pontudos e gostasse de beber Blood Mary (sim, esta referência é idiossincrática). Nunca irei saber.

Não tinha percebido, até o momento de hoje, de que estes escritos de Cipriano (o bruxo redimido pela fé) variavam tanto ao longo dos séculos a ponto de que as edições brasileiras ser um destaque literário-religioso, com inúmeras referências de religiões afro-brasileiras.

Um livro que eu temia quando criança, virou agora uma curiosidade sócia-literária que espero um dia saciar.

Man can be easily fooled. In fact, he has shown every indication that he must be fooled. He complains, “It’s a Barnum and Bailey world, just as phony as it can be,” yet he won’t have it any other way and seems to survive best under the most artificial conditions


The Satan’s Notebook – Anton LaVey

As mil facetas de Sidney Lotterby [17]

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Um jovem amigo foi premiado em uma competição de Astronomia; portanto aqui vai uma historieta do Bitchô sobre um livro …

Muitos acreditam que Nicolau Copérnico apareceu de alguma abadia e publicou de sopetão “Das revoluções das órbitas celestes” (De revolutionibus orbium coelestium) e revolucionou o modo como explicamos o ‘Céu’ e aumentou ainda mais a perplexidade humana perante o Cosmos.

Na realidade, sua ideia perigosa foi maturada por décadas através de cálculos, observações detalhistas e muita discussão entre seus pares. As chamas que lamberam Giordano Bruno e a hipótese de sair da discussão acadêmica entre seus colegas catedráticos e se expor publicamente o aterrorizava, pois sabia que aquele ‘Nihil Obstat et Imprimatur’ teria um custo.

Ad interim, ele escreu o famosíssimo “Commentarioulus”, um opúsculo que apresentava suas ideias razoavelmente validadas por suas observações e cálculos. Ele só escreveu/enviou esta obra para um pequeno círculo de colegas e até sua morte, nunca chegou a ser publicada.

Mas ela relaciona que sua opus magna não foi gerada num annus mirabilis como Newton teve, mas sim um corpo de conhecimento que se desenvolveu continuamente sobre evidências e previsões matemáticas.

Dá pra escrever um livro sobre este pequeno livro, mas eu precisaria de usar as páginas de todos os livros já publicados até hoje para descrever a felicidade do Maurício quando achou este livro num sebo. Talvez tivesse algo a ver com a obscuridade do livro fora do métier Física/Astronomia, talvez fosse pela raridade do livro em língua portuguesa, nunca soube precisamente, mas a felicidade dele era impressionante. E apesar de feito de poucas palavras, foi assunto de nossas conversas por inúmeras vezes.

By reason of these [arrangements], therefore, the moon appears to be fast at some times, and at other times slow, as well as to drop down and climb higher.

Nicoláu Copérnico – Commentarioulus

Turmoil

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Se há algo que aprendi em história econômica, é que os pré-eventos de grandes dilemas (armados ou não), são ‘previstos’ não em escala mas em acurácia de que ocorrerão.

Lendo notícias deste momento, também percebi uma coisa na tenra idade em que me encontro: quando o discurso político diverge das causas dos problemas, ele se apega ao populismo.

Com isto em mente, lembrei que em 2009, lendo notícias sobre o ‘aftermath’ da bolha imobiliária norte-americana, um economista disse que existia condições similares na realidade brasileira relacionado ao segmento de crédito e financiamentos. Acho que foi em 2012 que li outro economista que indicou que a política de renúncia fiscal (em grande parte pela desoneração/reoneração de segmentos produtivos, feita de forma discricionária e sem critérios técnicos) em voga era catastrófica em comparação aos indicadores daquele momento (já em desaceleração econômica).

Este último aspecto está estreitamente atrelado ao atual problema previdenciário que ameaça interromper o país se algo não for feito (Executivo/Congresso, principalmente) até Agosto/2019 (aprovação da Lei Orçamentária Anual de 2020 e do Plano PluriAnual de 2020 até 2023 do Governo Federal), como já alertou Zeina Latif e outros economistas.

Tangente a este assunto, a OXFAM lançou um infográfico:

Juntando o cenário local e o global, a desigualdade econômica acentuadamente crescente do momento, permitirá que determinados elementos sociais tomem a vanguarda das futuras ações das sociedades democráticas.

Um destes elementos, regular na História Moderna, mas pernicioso em essência, é o populismo político, que já alcançou uma nova narrativa que reverbera neste momento no Japão, Europa, EUA e América Latina.

E Narrativa é a palavra interessante. Como narrar para alguém que ele perdeu seu emprego porque o ‘outro’ vive numa situação geográfica mais privilegiada (infraestrutura, saúde, educação,…) do que a dele? Como narrar que saber utilizar expressões como Treasury Bond, CDB, LTN, são mais eficazes para ganhar dinheiro do que trabalhar mais de 40h semanais? E como narrar que, se não fosse a imensa massa ignara que trabalha mais
de 40h semanais (quando não acumula dois empregos ou mais), não haveria possibilidade de auferir lucros com CDB?

Na lacuna destas narrativas, os autoproclamados defensores da classe popular afirmam ter as respostas simples para problemas complexos.

Mas os modelos econômicos atualmente relacionados a mercados e produtos globalizados, geram um contexto de inexorabilidade financeira, i. é, os problemas sociais e econômicos locais são interdependentes de vetores globais (se assim podemos dizer) que geram uma função não em uma ordem de complexidade, mas em muitas.

Problemas sociais e econômicos multidimensionais.

Esta característica impede que seja elaborada uma narrativa contra-argumentativa que possa trazer o bom-senso comum entre as partes, i. é, replicar discursos populistas no sentido mais amplo possível de forma a trazer reflexão, de racionalizar o discurso.

É claro que isto não tem a menor importância para quem assiste a Fome passear com seus filhos. Então, por que escrevi todas as fanfarronices acima? Porque o texto abaixo:

Humans are hard-wired to spot and feel uncomfortable about unfairness. Economic inequality is unfair; why should some have so much while others suffer with so little? Economic inequality is also ubiquitous. Its extent varies widely, but it is always present to some degree. So every time we see an uprising or rebellion or coup, we also see inequality, and we often hear the participants in that turmoil talking about inequality as a motivation for their actions. Because this is emotionally salient, we are more likely to see and remember it. Then, when we recall and compare instances of political unrest, a clear pattern emerges: Inequality and unrest seem inextricably linked. Maybe inequality isn’t a sufficient condition for political crisis, but it sure looks like a necessary and important one.

Vai ser interessante ver tudo isto acontecer num framework ambiental sem perspectiva de resolutividade a curto-prazo. A longo prazo, soluções como a da Índia quanto ao seu controle de natalidade (em discussão neste momento e sem previsão de implementação) enfrenta outros elementos, ainda mais perniciosos.

What’s wrong with the world, mama

People livin’ like they ain’t got no mamas

I think the whole world addicted to the drama

Only attracted to things that’ll bring you trauma

Where is the Love – Black-Eyed Peas

Estágios Iniciais

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Sofrer de transtorno de ansiedade têm vários inconvenientes. O que mais me incomoda é a perda de sono. Sinto às vezes que é impossível alguém dormir tão pouco, até que me enquadro em períodos de tanta atividade perceptivo-sensorial de 20 horas ininterruptas. Estas fases de perda de sono variam entre dias a semanas, e geralmente o pior sintoma são as flutuações de humor (fico mais rabugento do que o usual). Controlo os sintomas pelo etilismo, mas esta tática não é recomendável. 🙂

Infelizmente para mim, a literatura médica indica a perda de sono como fator correlacionado para a Doença de Alzheimer. (A comorbidade do etilismo só piora o quadro clínico) 😦 🙂

Mas bons ventos científicos nesta seara foram divulgados por uma equipe da University of Southern California, através da revista “Journal of Experimental Medicine”, apresentando um possível caminho de tratamento desta doença por uma proteína (modificada por bioengenharia) que, aparentemente em ratos, evita a formação de peptídeos no tecido cerebral tipicamente associada ao sintoma de perda da memória.

Novos estudos são necessários (principalmente a replicação do resultados publicados), mas a esperança de testes clínicos num futuro aumentou, e a crença (no sentido científico) na cura surgiu.

Tenho duas armas para lutar contra o desespero, a tristeza e até a morte: o riso a cavalo e o galope do sonho. É com isso que enfrento essa dura e fascinante tarefa de viver.

Ariano Suassuna

Seu cheiro ainda está no meu lençol

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Marciano morreu hoje.

Eu morava com a minha família num cortiço e via minha mãe lavando roupa (não só de nossa família) com a trilha sonora de difusoras como a Atalaia tocando regularmente João Mineiro e Marciano.

Naquelas manhãs frias, minha mãe cantava as músicas que saia pelo rádio de pilha e se emocionava com as histórias melosas do tipo ‘Renato Gaúcho’. Ela mãe me deu um LP do Elvis quando eu tinha 11 anos, mas depois de tanto insistir que não aguentava mais ouvir Diana e Roberto Carlos. Na primeira vez que ouvi heavy metal, foi numa fita K7 45 minutos, onde somente um lado (22 minutos?) tinha rock, no outro era sertanejo; mas ouvia aquela fita mais de duas vezes todos os dias. Tive uma infância musicalmente caótica.

Marciano morreu hoje.

E neste último translado de solstícios, Charles Aznavour, Marty Balin, Aretha Franklin, Lorrie Collins, Vinnie Paul, Matt Murphy, D. J. Fontana, Yvonne Staple, Fast Eddie Clark se foram com ele, entre muitos.

A minha infância vira cada vez mais um obituário.

Now it’s over but the thoughts of you go on 
Nothing here, nothing left at all 
Oh, and how, how I swore I’d never feel like this again 
But then you, then you brought it through

Nothing Left At All – The Cranberries

Common Wealth

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Esta é uma história engraçada … não, para mim … mas engraçada.

Nesta quarta-feira, 16/01/2019, chegando no condomínio comercial em que minha esposa trabalha, o acesso ao estacionamento estava bloqueado pois na passagem tinha um veículo sendo carregado de materiais em decorrência da reforma de uma das lojas.

Liguei da entrada do condomínio e avisei que não podia entrar.

Como a avenida em frente ao condomínio era muito movimentada, embiquei meu carro no acesso do estacionamento da edificação ao lado para evitar mais manobras, pois a edificação já estava fechada e minha esposa estava vindo.

Com o pisca-alerta ligado, mal fiquei dois minutos dentro do carro, quando ouço um barulho. Até eu perceber o que aconteceu e o que um senhor de cabelos brancos estava gritando para mim, demorei alguns segundos.

Saí do carro e minha esposa me olhou surpresa de qual o motivo de estar correndo do carro em direção do senhor (ele já tinha se distanciado).

Interpelei-o à distância, perguntando por que ele tinha feito aquilo.

Carregando numa das mãos a guia do cão que passeava com ele, num tom muito agressivo, ele disse-me que era porque o meu carro estava obstruindo parte da calçada.

Concordei com ele e perguntei-lhe se precisava ter aquela resposta tão destemperada de esfregar uma chave na lateral do carro.

Me xingando de filho-da-puta, disse que sim, e que na próxima oportunidade furaria os quatro pneus.

Impressionado, satirizei a sua resposta, dizendo-lhe que não tinha mais idade para tal comportamento.

Aviso: Nunca faça isso, tratar com condescedência assertiva um idoso colérico, pois só irá aumentar a reação emotiva dele.

Ele ficou mais colérico do que antes, e entremeou argumentos do tipo ‘eu não anda no meio da rua’ com elogios ‘vai-tomar-no-cú’ e ‘pau-no-cú’.

Repeti-lhe novamente que com a idade avançada deveria vir a temperança e fleuma (não utilizei estas palavras, é claro).

Ele percebeu que os palavrões não adiantavam comigo, e apelou para o melhor argumento possível: preconceito.

‘Isto é coisa de vileiro! Também gente que vêm de [nome da cidade registrada na placa do carro] só pode ser vileiro!’

Isto realmente foi uma surpresa, perguntei-lhe por que ele era ‘assim’, por que ‘aquele’ comportamento infantil.

Ele virou-se e foi embora como se tivesse dado uma trombada em uma calçada movimentada.

Fiquei ali na calçada pensando se deveria ter ‘altercado’ com ele para a reparação do dano que ele causou. E a raiva que sentia foi substituída por uma decepção com a espécie humana, onde só consegui dizer:

‘Ame mais e seja feliz!’

Não sei de onde veio esta frase, mas repeti em voz alta duas vezes para que ele ouvisse.

Neste ínterim, minha esposa (que já tinha visto o estrago na lataria) se aproximou muito pertubada e nervosa.

A decepção é maior, pois na breve conversa que tive, no calor das emoções, não tive oportunidade nenhuma de pedir desculpas por obstruir parcialmente o passeio e eu não permiti que ele pedisse desculpas por ter vandalizado o meu veículo. Estou procurando as imagens de câmaras dos prédios próximos para estabelecer um nexo causal entre este idoso e o risco do meu carro e a próxima etapa (mais difícil, reconheço) será identificá-lo para representação para reparação de danos.

P.S.: Fiquei preocupado com a qualidade de vida daquele cão.

Well my sense of humanity has gone down the drain
Behind every beautiful thing there’s been some kind of pain

Bob Dylan – Not Dark Yet

As mil facetas de Sidney Lotterby [15]

Padrão

A ausência de fé do Maurício pode ser explicada por muitas facetas.

Eu colocaria como causa primeva o seu fascínio por Astronomia desde sua pré-adolescência. Quando você compreende o tamanho de planetas como Júpiter e estrelas como Eta Carinae em escala (astronômica) comparativa com a pequena rocha errante em que vivemos e dominando o básico dos escritos de Darwin, perguntas metafísicas se tornam extremamente estúpidas.

Mas também seria uma estupidez reduzir o ateísmo dele só em base científicas. Como já escrevi antes, o Bitchô lia muito quando nos conhecemos e seu olhar aguçado para descobrir preciosidades em sebos era impressionante (na verdade, não era incomum ele chegar num sebo pela manhã e voltar à tarde pois não tinha conseguido escarafunchar todas as prateleiras que pretendia).

E aí o ateísmo dele foi transformado pelo lirismo dos escritores que ele descobria como, por exemplo, pelo ‘Diário de Eva’ ou ‘Extratos do Diário de Adão’ de Mark Twain. As narrativas pelas perspectivas das personagens bíblicas são muito engraçadas e isto preparou o terreno para a leitura de outros livros de Twain, um em especial muito anti-religioso, ‘O Estranho Misterioso’:

“It is true, that which I have revealed to you: there is no God, no universe, no human race, no earthly life, no heaven, no hell. It is all a dream—a grotesque and foolish dream. Nothing exists but you. And you are but a thought—a vagrant thought, a useless thought, a homeless thought, wandering forlorn among the empty eternities!”

Mark Twain não era ateísta no sentido estrito, mas seus escritos satíricos das escrituras fizeram-nos rir muito. Vou citar em posts futuros novos livros da ‘Biblioteca’ do Maurício Loik… e será bastante livros …

Why do you consent to live in ignorance and fear?
Ignorance and fear, ignorance and fear
Ancient people succumbed to it, can it happen here?
Can it happen here, can it happen here?

Does it make you suffer ‘cause you have to die?
Is it best to live a lie?

Headed for eternity and destined for nothing
The future isn’t difficult to see
It’s easy to confuse grand design with life’s repercussions
Lament not your vanquished fantasy, it’s only destiny

‘Destined for Nothing’ – Bad Religion

Like the ocean’s pounding roar

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Li o relato nas redes sociais do jovem Bruno Pontes antes de seu suicídio. Como não é de estranhar a lembrança, esta semana também indica que faz um ano do suicídio do Maurício.

A despedida de Bruno diz muitas coisas, mas fora o fato de indicar a depressão como gatilho, quem não o conhecia (como eu) fica a impressão de que ele escondeu sua condição sanitária pela persona social que ele representava. Seria uma pena …

O que me chamou a atenção no relato é sua preferência por conversar e ouvir música com os poucos amigos. Isto também era muito a ‘cara’ do Bitchô.

Por outro lado, círculo exíguo de amigos (1) e a baixa interação com este círculo, são fatores preditores para autolesão. Em ação conjunta com a ausência de interação saudável com o núcleo familiar, o problema de saúde mental ficará cada mais refratário.

Assim, aqui vai algumas dicas:

  • Não julgue a desordem de saúde mental (‘isto é frescura’; ‘quem fica até esta hora na cama é vagabundo’;…). Se fizer isto uma vez, a eficácia do diálogo fica comprometida. Na segunda vez, a pessoa não vai nem querer conversar;
  • Fique ao lado. Quando não fisicamente, pelas redes sociais, pelo telefone, por pombo-correio ou telepatia. O importante é deixar um caminho sempre _aberto_ para ‘conversar’;
  • Se não tiver o que falar, ouça. Só o fato de poder desabafar possui enorme impacto positivo para quem está doente;
  • Se for falar, certifique-se de que você conhece significativamente o quadro de saúde para evitar reforço negativo.

Se pesquisar na internet verá outros conselhos mais adequados e valiosos, e na dúvida, os serviços grátis (tipo o Centro de Valorização da Vida – CVV – número de telefone 188) fornecem suporte para quem quer ajudar e quem precisa ser ajudado.

A situação é espinhosa de se lidar, ainda mais numa base diária. E quanto menor o círculo de amigos e de familiares ao redor da pessoa doente, maior é o risco da autolesão. Assim, auxiliar a pessoa a estabelecer outros ‘caminhos’ é vital (no sentido mais estrito desta palavra), de maneira que potencialize as interações com mais pessoas e crie um rede de proteção quanto á vulnerabilidade mental.

(1) Amigos são aquelas pessoas em que as interações (boas ou más), são valiosas; colegas são aquelas em que ‘tanto faz’.

Hollis Brown
He lived on the outside of town
With his wife and five children
And his cabin fallin' downYou looked for work and money
And you walked a ragged mile
You looked for work and money
And you walked a ragged mile
Your children are so hungry
That they don't know how to smile

Ballad of Hollis Brown – Bob Dylan

Mentiras

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Pessoas em posições de destaque possuem maior acesso à meios de comunicação.

Pessoas estúpidas em posições de destaque, também.

Neste momento acontece na terra dos yankees um bloqueio de atividades governamentais públicas baseado numa mentira.

As afirmações mentirosas são relacionadas à forma de que a terra da liberdade é invadida por ‘terroristas’ mexicanos e outras etnias/nacionalidades. Também há um número apensado à mentira (em torno de 4.000 ‘terroristas’) e um discurso ensaiado em várias pastas do governo yankee.

Bem, a invasão do número apregoado é pelos aeroportos yankees e não por solo, e a taxa de egresso de imigrantes (legais/ilegais) é, em alguns momentos, maior do que de ingressos.

Neste caldo, a visão de crianças em campo de concentração nos desertos yankees ou chorando na fronteira pela ação de gás lacrimogênio, virou assunto que causa letargia no Homer Simpson que assiste/ouve as notícias yankees.

O mesmo processo acontece por aqui, nas paragens tupiniquins. Com o menosprezo (eu poderia dizer ataques) pela liberdade de expressão e de imprensa, vemos mentiras definindo pautas de políticas públicas para assuntos que não existem (marxismo cultural, ‘despetização’ (?) dos órgãos públicos) e que não possuem nenhuma evidência (negacionismo das mudanças climáticas). Atrelado a isto tudo, a agenda religiosa (a mudança de embaixada em Israel, por exemplo) atropela tópicos de maior relevância e prioridade.

Os desmentidos e quid pro quo de bastidores indicam que serão turbulentos os próximos anos.

The bosom of America is open to receive not only the opulent & respectable Stranger, but the oppressed & persecuted of all Nations & Religions; whom we shall wellcome to a participation of all our rights & previleges, if by decency & propriety of conduct they appear to merit the enjoyment.

George Washington

As mil facetas de Sidney Lotterby [14]

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Faz um ano desde a última vez que vi o Maurício vivo.

 

Ele estava transtornado.

 

Saímos com um sentimento triste, de desalento.

 

A vida não tem sentido; a morte também não.

 

My father was a stupid bastard

That’s why my mama was a bitch.

She’s made my life a living hell

Henry – Os Catalépticos

Fascismos 101 (2)

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Há alguns anos ouço/leio argumentos de que as ações mitigadoras ou de transferência de renda do governo federal são ‘fábricas de vagabundagem’.

Muitas vezes estes argumentos vem com gráficos como este da FSP, onde chamo a atenção para o último gráfico na parte inferior à direita:

Resultado de imagem para Pessoas fora da força de trabalho

Muitos clamam que estes índices são abastecidos pela (des)motivação dos programas de ‘Bolsa-vagabundagem’; que são pessoas que dependem dos recursos públicos e não pretendem nunca trabalhar e tampouco estudar (os adultos).

Quem trabalha na área sabe que há fatores sociais que turbilham estes números quando analisamos de como estes recursos são despendidos em função das características das famílias, do domicílio, de instrução, apresentando inferências demográficas. Por outro lado, o gênero e faixa etária nos indica um universo de informações mais truncado, pois inicia-se a predominância de mulheres, solteiras, de baixa instrução, com alta taxa de natalidade,… Quando inserimos novas camadas de informações (população economicamente ativa/inativa relacionado à faixa de renda, cruzando com a distribuição demográfica,  …), identificamos que os recursos são muitas vezes alocados em regiões de grande vulnerabilidade social.

Mas ninguém se interessa muito por isso e o lugar-comum são casos anedóticos para críticas…

Os efeitos multiplicadores destes programas de transferência são vantajosos quando falamos em crescimento macroeconômico ou regional; principalmente quando integrados às outras ações (educação, segurança pública, saúde, …).

Contudo, em 2018 o IBGE  revisou suas projeções e indicou que o bônus demográfico que alcançaria até 2023, finda agora, neste ano. E aí a coisa fica trágica quando as projeções apresentam futuros periclitantes:

fonte: https://www.valor.com.br/brasil/5688415/bonus-demografico-termina-com-menor-alta-da-populacao-ativa

E o que tem a ver programas de transferência de rendas e ‘velhice’?

É que não obtemos o ‘salto’ que o bônus demográfico oferecia como oportunidade. Por salto aqui entenda-se a alavancagem econômica baseada em fomento educacional para gerar mão-de-obra mais qualificada, tipicamente como aconteceu com os países denominados ‘tigres asiáticos’ nos anos 90s.

Os investimentos foram ineficazes e os resultados foram pífios quando em função do total detrimento da educação básica em prol de outros modais educativos (IES, principalmente).

Logo, os avanços em Saúde Básica e Segurança Nutricional estão convergindo as expectativas de vida do brasileiro (como mostra o quadro do Valor.com.br), mas infelizmente, uma parcela significativa desta população é mal qualificada ou terá ocupações econômicas subqualificadas durante boa parte de seu período de atividade econômica, acarretando um ônus pesado ao nosso já trêmulo PIB.

Em economias globalizadas este quadro significa uma coisa: migração dos melhores empregos para os países com parcela populacional com melhor qualidade educacional ou melhor nivel de qualificação em novas tecnologias.

Numa analogia grosseira, é como se tivéssemos que emagrecer 200 quilos para correr 100 metros em 10 s, mas ao invés disso engordamos 50 quilos.

Isto se dará num contexto de crescente importância da Agenda 21 e dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio em função do pequeno pedaço de rocha em que vivemos. Discursos oportunistas que defendem a menor intervenção de políticas públicas para a obtenção destes objetivos de sustentabilidade são, além de delusionais em não propor alternativas factíveis, criminosos por apresentar ideologias aos invés de argumentos baseados em evidências.

Os programas de transferência de renda, como mitigadores de vulnerabilidades, tinham expectativa de tendência de diminuição a alocação de recursos públicos desde que aproveitássemos o bônus demográfico. Agora, as políticas públicas devem ser reelaboradas em função deste prognóstico do IBGE, mas o populismo que tomou por força o meio político atualmente impedirá qualquer agenda humanista ou progressista para que melhoremos o índice GINI.

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Escola Humanista Secular

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O projeto religioso/político popularmente conhecido como ‘Escola Sem Partido’ foi arquivado nesta semana. Por manobras regimentais, não era possível votar até o final do exercício desta legislatura; a qual apaga as luzes do congresso com achaques ao Erário Federal.

 

Mas a próxima legislatura promete vir com mais fervor religioso e organização regimental, e é bem possível que a ‘lei’ passará, com alguns truques de juridiquês na redação da proposta.

 

O projeto em si é uma imbecilidade, pois permeia a (auto)censura ao meio docente e o julgamento manco ao imberbe corpo discente. Na esfera pública, professores são uma classe de profissionais extremamente desvalorizada e vivem numa realidade pior que os devaneios de Charles Dickens. Agora querem que se submetam a uma realidade mais opressora que poderia ter sido inventada por Huxley ou Orwell.

 

Educação é PIB.

 

Educação é liberdade.

 

Enquanto aparelhos ideológicos do estado brigarem pelo dinheiro envolvido (gasto ou gerado do PIB) ou pela contenção de liberdades no ambiente escolar, vamos pagar muito caro por nos preocuparmos mais com palavras ‘comunistas’ em sala de aula do que pela ausência de papel no banheiro da escola.

 

“The business of the teacher is to produce a higher standard of intelligence in the community, and the object of the public school system is to make as large as possible the number of those who possess this intelligence. Skill, ability to act wisely and effectively in a great variety of occupations and situations, is a sign and a criterion of the degree of civilization that a society has reached. It is the business of teachers to help in producing the many kinds of skill needed in contemporary life. If teachers are up to their work, they also aid in the production of character.”

John Dewey

We Are Fucking Angry

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Macron vive neste momento num embate político, econômico e social.

 

A pauta progressista dele (sobretaxar emissões de carbono e reforma previdenciária e trabalhista), empacou nos grupos sociais e políticos que compõem os 99% (https://en.wikipedia.org/wiki/We_are_the_99%25).

 

A França está hoje num dilema que, assumo dizer, é global: políticas públicas versus desigualdade social.

 

Sim, o francês médio está meio que estropiado e não é de agora:

fonte: http://piketty.blog.lemonde.fr/2017/04/18/inequality-in-france

 

Uma parcela significativa da população ficou aquém e seus filhos possuem perspectivas financeiras de menor ambição do que eles. E não é só eles, o fenômeno é global por assim dizer. A famosa frase de Milton Friedman, agora nos leva ao “não há emprego de graça” ou “não há sustentabilidade de graça”.

 

O grande dilema de um dirigente político num mundo altamente globalizado é como provir a tão sonhada sustentabilidade sem incorrer em taxação progressiva sobre grandes fortunas ou implementar reforma previdenciária, dois exemplos de temas em atual discussão no futuro governo Bolsonaro.

 

Se a economia é fechada não haveria muito do que se preocupar, mas a globalização mexeu com tudo isso, distorcendo a percepção política no processo.

 

Nos exemplos supracitados, que considero propostas aplicáveis à realidade brasileira como opções de otimização de arrecadação de receita e diminuição do déficit público (sim, eu sei que o arcabouço jurídico/político é mais complexo, mas ainda assim aplicáveis), não vislumbro a mínima chance desta agenda avançar sem que os conflitos franceses se espalhem pelas terras tupiniquins.

 

Mas a Agenda 21 é uma necessidade ambiental e também econômica; e o mercado internacional iniciará um lento processo de se fechar para quem não se comprometer com os seus propósitos. As futuras implementações de banimento de veículos automotivos baseados em combustíveis fósseis é um tendência e quem demorar para tomar este tipo de decisão, vai amargar perdas de divisas financeiras para quem largou na frente.

 

E então? Reformas são necessárias, mas problemas seculares que não foram resolvidos nas gestões anteriores viraram situações emergenciais (Reforma da Previdência é um exemplo).

 

Ao mesmo tempo, propostas progressistas e urgentes (políticas públicas relacionadas com o Acordo de Paris, por exemplo), não acham espaço ou relevância no discurso político, pois as pessoas que votam perceberam que o que ganham no final do mês mal dá pra pagar as contas básicas de alimentação, transporte e moradia. Como reclamam os franceses, nem sair pra almoçar fora uma vez por mês eles não fazem mais…

 

Mas a desigualdade francesa é muito diferente da brasileira, mas os anseios franceses são muito parecidos com os nossos.

 

Como lidar com isso?

 

Confrontar diretamente os efeitos da globalização é difícil, vide a guerra fiscal/aduaneira entre China e EUA; ainda mais para manter empregos que serão extintos de qualquer forma. Como proposta populista, possui apelo eleitoral, mas a longo prazo é mecanismo de evasão econômica, quando não de recursos intelectuais.

 

Procurar um meio termo, entre proteger o mercado interno, arrefecer medidas de saída do capital e aquecer a moeda, depende de MUITAS reservas internas e de crescimento do PIB estável. Poucas economias podem se dar ao luxo desta terceira via.

 

Fechar o mercado para a globalização e para os mecanismos financeiros, nem o arquipélago de Tuvalu conseguiu.

 

Ideias econômicas não-convencionais, como crescimento do PIB nulo e renda básica universal, estão sendo mais aventadas mas carecemos de experimentá-las em escala em que seja possível inferir sua aplicabilidade aqui ou acolá.

 

Voltando à França, Macron veio ao poder por se utilizar de um discurso que destoava do tradicional, personificando um momento de mudança. Mas como mudar uma ‘economia’ que não permite equilibrar a desigualdade econômica e o capital possui maior influência do que os escrutínios representativos?

 

Esta pergunta abre o caminho para o discurso populista, onde não há negação do capital globalizado, mas há a promessa que com medidas simplórias se resolve as mazelas do desemprego e da subrenda.

 

Vamos esperar … e pagar … pra ver.

 

“(…) an inequality of the worst kind, as they must frequently fall much heavier upon the poor than upon the rich.”

Adam Smith – The Wealth of Nations